França quer a participação da ONU
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terça-feira, 06 de abril de 1999
Gilles Lapouge Agência Estado 
Algo aconteceu ontem à tarde em Belgrado, na Iugoslávia.
O ditador Slobodan Milosevic, após esses longos dias de bombardeios pela Otan, decretou uma trégua unilateral das tropas sérvias contra os rebeldes de Kosovo. Ao mesmo tempo, anunciou que negociaria com um dos chefes kosovar (o moderado, o não-violento, Ibrahim Rugova) um estatuto de autonomia para a província sérvia do Kosovo.
Os grandes chefes da coalizão ocidental, Bill Clinton, Tony Blair, Jacques Chirac rejeitaram desdenhosamente as ofertas de Milosevic. Nada de surpreendente: essas ofertas são medíocres. Para que sejam levadas a sério, seria preciso também que os soldados sérvios se retirassem do Kosovo, que os observadores internacionais pudessem ver a reinstalação dos kosovares em suas aldeias massacradas, etc.
Além disso, a questão que se coloca, nesta noite, é diferente: o que significa a brusca suavização de Milosevic? Trata-se de um artifício, uma trapaça semelhante a todas as trapaças que Milosevic já cometeu, outrora, na Bósnia, na Croácia?
As forças da OTAN rejeitaram iradas o artifício (ou a ruína) de Milosevic. Alguns sem matizes (Clinton e Blair). Chirac fez um discurso brutal, muito arrogante e até mesmo feroz em relação ao ditador iugoslavo, mas não fechou todas as vias de uma possível reflexão.
Essa reflexão poderia servir-se das propostas de Milosevic para retomar o registro que, sem dúvida, não deveria jamais ter sido abandonado, o registro político, única saída saudável para esse horror balcânico.
Na realidade, de acordo sobre essa questão com seu primeiro-ministro, Lionel Jospin, Chirac começou a reintroduzir em seu discurso um ator que foi o grande ausente em todo o drama do Kosovo, a ONU, que em nenhum momento foi consultada antes da Otan iniciar seus bombardeios.
Essa tentativa de desencalhar a ONU indica que, de qualquer maneira, para os dirigentes franceses, o efeito dos bombardeios maciços realizados pela Otan é, a partir de agora, satisfatório para que se favoreça, após essas noites de guerra e de morte, a volta do político.


