Maurice Papon, um personagem da Quinta República gaullista, de 87 anos de idade, começará a ser julgado hoje por crimes contra a humanidade. É acusado de ter deportado mais de 1.500 judeus durante a Segunda Guerra Mundial, quando uma parte dos franceses colaborava com os nazistas que ocuparam a França.
Mauricio Papon era encarregado das ‘‘questões judias’’ no departamento de Gironda, sudoeste da França, território que os invasores alemães haviam deixado em mãos do governo francês liderado pelo marechal Philippe Petain.
Papon, segundo a acusação, teve responsabilidade nas operações para capturar esses judeus e no envio deles à Alemanha onde a morte os esperava.
Um dos aspectos mais surpreendentes do processo que se inicia, com mais de 50 anos de atraso, é a trajetória ilustre de Papon na França do pós-guerra assim como as redes de cumplicidade que não apenas o protegeram de sanções judiciais mas que, além disso, o ajudaram a escalar altas posições no governo francês.
Papon, responsável pelas ‘‘questões judaicas’’ do governo de Vichy, colaborador dos nazistas alemães ocupantes de seu país, foi nomeado mais tarde prefeito da polícia de Paris pelo general Charles De Gaulle. Respeitado e adulado teve uma brilhante carreira política, chegando a ser ministro do presidente Valery Giscard d’Estaing.
O julgamento de Papon, que deve durar dois meses, será ilustrativo não apenas de crimes esquecidos dos anos negros da Guerra mas também das circunstâncias que permitiram esse esquecimento.
As travas que durante anos haviam atrasado o processo de Papon desapareceram e os franceses, segundo pesquisas, declaram-se amplamente a favor de um processo que ameaça reabrir feridas mal cicatrizadas de há meio século.

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