Fracasso ronda conferência de Kyoto
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segunda-feira, 08 de dezembro de 1997
Paulo Sotero Agência Estado Kyoto, Japão 
O mais ambicioso projeto de regulamentação de uso de recursos naturais em escala global, com o objetivo de proteger o meio ambiente, arrisca terminar num fiasco político. Depois de uma infrutífera maratona de seis dias de negociações, os ministros dos 166 países signatários da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que em 1992 estabeleceu objetivos voluntários de redução das emissões dos gases que alimentam o efeito estufa para 34 países industrializados, iniciarão sua terceira reunião hoje na antiga capital do Japão praticamente no mesmo ponto onde estavam dois anos e meio atrás, quando constataram que as metas não estavam sendo respeitadas e decidiram torná-las obrigatórias.
Preocupados com o impacto que os compromissos de cortes das emissões poderá ter sobre suas economias, europeus, americanos e japoneses não se entendem sobre quanto e quando reduzir e tentam passar uma parte do ônus às nações em desenvolvimento. Estas, por sua vez, resistem à pressão dos ricos para que assumam desde já o compromisso de limitar o crescimento de suas emissões futuras, que devem equipar-se às das nações industrializadas nas primeiras décadas do próximo século. E, mesmo que se chegue a um entendimento na última hora, não está claro como o cumprimento das metas será verificado.
Um dos raros itens de aparente consenso que emergiram das conversas na semana passada, como a criação de um Fundo de Desenvolvimento Limpo proposto pelo Brasil, para facilitar transferência de recursos e tecnologias limpas das nações industrializadas para o mundo em desenvolvimento, perdeu terreno no fim de semana, por causa da falta de entusiasmo dos europeus pela idéia. Ao mesmo tempo, os países em desenvolvimento redobraram seus esforços para brecar propostas dos Estados Unidos destinadas a criar um sistema liberal de comércio de emissões e poder deduzir, no cálculo de suas emissões, o dióxido de carbono (CO2) que é reabsorvido pelas florestas por processos naturais. Se passar o que querem os americanos, uma convenção feita para cortar emissões autorizará o maior emissor a aumentar a poluição, disse um membro da delegação brasileira.
O ministro da Ciência e Tecnologia, Israel Vargas, liderará a representação brasileira durante os três dias finais da convenção. Vargas, que chegou ontem a Kyoto e reuniu-se com os demais membros da delegação de uma dúzia de pessoas, apresentará hoje ao plenário as posições do País, que tem tido um papel importante nos bastidores da conferência.
Com a convenção sob o risco de ser esvaziada por uma peleja em torno do que alguns já vêem, jocosamente, como um grande exercício de compra e venda de ar, milhares de militantes de organizações não-governamentais dedicadas à defesa do meio ambiente marcharam ontem pelas ruas de Kyoto para exigir que a reunião produza resultados efetivos. Isso dependerá em grande parte da atuação do vice-presidente dos Estados Unidos, Albert Gore, que representará seu país na sessão de abertura da reunião ministerial, hoje. Um político que conscientizou os americanos sobre o problema do efeito estufa e foi, até recentemente, o campeão do movimento ambientalista, Gore chega hoje a Kyoto na surpreendente posição de porta-voz da proposta mais tímida - uma mera estabilização das emissões aos níveis de 1990 a partir do ano 2008. Cinco anos atrás, quando era senador, Gore criticou duramente o então presidente George Bush por ter apoiado a meta inicial da convenção, que era a da estabilização das emissões no ano 2000.


