Os fortes usados para o tráfico negreiro, construídos ao longo da costa de Gana, atraem anualmente dezenas de milhares de ''turistas da lembrança'', na maioria americanos negros.
Muitos retornam dessas visitas emocionados, com o sentimento de que se o passado e seus horrores não puderem ser apagados, alguns gestos, por exemplo, de tentativa de reparação, poderiam atenuar a dor.
Esta pelo menos é a reivindicação de várias ONGs africanas antes da reunião de cúpula mundial da ONU contra o Racismo e a Discriminação que começa dia 31 em Durban (África do Sul). Mas essa indenização vem sendo rejeitada tanto pelos Estados Unidos quanto pela Europa.
O forte de Cape Coast (120 km a oeste de Accra), construído por um sueco em 1652 para o comércio de madeira e conquistado pelos ingleses em 1664, é hoje em dia um verdadeiro e pequeno museu do comércio de escravos, que recebe a cada dia 200 visitantes, em maioria afro-americanos.
Na entrada dos calabouços onde os cativos poderiam ficar amontoados até seis semanas antes de atravessar o Oceano Atlântico, pode-se ler numa placa: ''Que aqueles que morreram descansem em paz, que os que voltarem encontrem suas raízes, que o homem nunca volte a cometer uma injustiça deste tipo contra o próprio homem. Nós nos comprometemos a lutar para que que isso não volte a ocorrer.''
Nesses cômodos sombrios, sem janelas, os cativos viviam em meio aos próprios excrementos, que podiam chegar até os joelhos se a espera se prolongasse, explica um guia. As mulheres eram quase sempre vítimas de estupros, os homens ''difíceis'' eram golpeados e às vezes assassinados.
Bailus Webb, um professor negro aposentado da Filadélfia (EUA), efetua sua segunda visita em dois anos a Gana para visitar os fortes. ''Como era possível tratar seres humanos desta forma chamando-os selvagens? Quem eram os verdadeiros selvagens?'', indaga.
Uns dez milhões de africanos foram vítimas do comércio negreiro do século XI ao século XIX, vendidos em troca de armas, de álcool ou de adornos.
Webb tem uma idéia precisa do que os Estados Unidos devem fazer para enfrentar esse passado doloroso. ''Sou a favor das reparações. Ajudariam as cicatrizes a fechar. É tempo de os Estados Unidos pedirem perdão.''
O professor quer, além disso, ''mudar a forma com a qual a escravidão é ensinada na escola, que trata o assunto superficialmente''.
David Yao Mensah, guia do forte, conta que com frequência os turistas terminam a visita em lágrimas. ''Quando vão aos calabouços, não podem acreditar e começam a chorar. Às vezes há brigas entre brancos e negros. Uma vez, uma mulher jamaicana se atirou a uma turista branca gritando: Olhe o que seus ancestrais fizeram. O que vem buscar aqui? Vá embora.'' De acordo com Joel Sonne, do departamento de turismo de Gana, a maioria dos cerca de 400.000 turistas que visitaram o país ano passado foram conhecer os fortes.
A 15 quilômetros de Cape Coast, o forte de Elmina foi construído em 1482 pelos portugueses antes de ser tomado pelos holandeses e depois pelos ingleses.

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