Enquanto a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) completava ontem dois meses de sua campanha aérea contra a Iugoslávia (Sérvia e Montenegro), atacando usinas termoelétricas e prevendo a vitória para breve, forças sérvias libertaram centenas de albaneses étnicos em idade militar, que denunciaram torturas, e a intimidação para que cruzassem a fronteira albanesa.
Cerca de 600 conseguiram cruzar no remoto posto albanês de Morina, debilitados por pelo menos 20 dias de ‘‘vida subumana’’ em prisões sérvias nas regiões de Smrekonica e Mitrovica.
Todos eles receberam água, rações, roupas e medicamentos e relataram a experiência nas mãos da polícia sérvia. ‘‘Antes de me levarem para a prisão, golpearam-me diante de meus filhos com incrível fúria’’, contou Bahri Hyseni, de 30 anos. ‘‘Éramos cerca de 400, amontoados numa única cela, onde só podíamos ficar de pé ou sentados’’, lembrou. ‘‘Eles batiam na gente a todo instante.’’
Outro refugiado, com sinais de tortura no rosto, disse que ele e seus companheiros ficaram quatro dias e quatro noites sem receber comida ou água. ‘‘Depois disso, passaram a dar para a gente apenas um pedaço de pão por dia’’, acrescentou.
A maioria esmagadora dos kosovares libertados pelos sérvios é constituída de homens entre 20 e 50 anos de idade. Nenhum tem idéia de onde estão seus parentes. O Alto Comando das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) calcula em 250 mil o número de albaneses étnicos em idade militar desaparecidos em Kosovo desde 24 de março, quando a Otan iniciou a Operação Força Aliada.
Em Bruxelas, o porta-voz da Otan, Jamie Shea, num balanço dos dois meses da campanha área, assegurou que foram destruídos um terço do armamento pesado do Exército sérvio e pelo menos cem aviões da Força Aérea, além de centenas de instalações militares e pontes rodoviárias estratégicas. Segundo o porta-voz, a Otan está muito próxima da vitória.
Em Londres, o chanceler britânico, Robin Cook, anunciou a decisão da aliança de ampliar de 28 mil para 50 mil o número de soldados que devem formar a futura força de paz para Kosovo. Enquanto isso, em Washington, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger lançou duras críticas ao que classificou de ‘‘guerra de 5 mil metros de altitude’’ conduzida pelo presidente Bill Clinton. O ex-chefe da diplomacia americana acusa Clinton de deixar-se guiar obsessivamente pelas pesquisas de opinião e indaga: ‘‘Por que, então, não intervir na Argélia, Sudão, Serra Leoa, Croácia, Ruanda, Cáucaso e outras regiões?’’Joel Robine/AFPCONDIÇÕES SUBUMANASAlbaneses étnicos em Morina: denúncias de tortura, vida subumana em prisões sérvias e intimidaçãoAE-Associate Press

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