Gilles Lapouge
Agência Estado
De Paris
Timor Leste: esta metade de uma ilha do Oceano Índico, antiga colônia portuguesa anexada depois pela enorme Indonésia em 1975, acaba de reivindicar legalmente sua independência através de um plebiscito organizado sob a égide da Organização das Nações Unidas (ONU). Foram cerca de 80% de votos em favor da independência.
Mas, apesar da votação maciça, a Indonésia recusa-se a conceder a liberdade aos habitantes (em sua maioria católicos) de Timor Leste. E, após o plebiscito, quadrilhas de bandidos, incentivados talvez pelo Exército indonésio, semeiam o terror no território. Isso será uma ‘‘lição’’ para esses timorenses que querem ser independentes! Que idéia é essa? Devem por isso morrer!...
E a ONU? O que faz a ONU? – A ONU reflete. Sua função própria é refletir. A ONU realiza sessões. Diz que as ‘‘milícias’’ de matadores são muito perversas. Esta catalepsia não causa absolutamente surpresa. Começamos a habituar-nos a isso. Em Ruanda, depois na Iugoslávia (a Croácia, depois a Bósnia e finalmente Kosovo), a ONU espiou e viu o espetáculo que agora Timor Leste nos oferece.
Em todos estes casos, os jornalistas, por mais confusos que fossem, já previam há meses o ciclone iminente. O drama de Kosovo estava sendo preparado, à vista de todos, havia um ano. O de Timor Leste foi programado e anunciado a som de trombeta. Era um ‘‘segredo de Polichinelo’’. Exceto para a ONU, cujos representantes, cegos, surdos, impotentes, desinteressados e incompetentes, viam a desgraça se aproximar, prostrados, paralisados, como um coelho vê a serpente abrir a boca para engoli-lo. Amanhã haverá um drama no Sudão ou em Caxemira. Todos os jornais o sabem, mas a ONU não. A ONU não lê jornais.
É verdade que a ONU é uma máquina lenta, desajeitada e sujeita a falhas. Uma dessas falhas é a presença da China no Conselho de Segurança. A China tem o direito de veto. E se pronunciará contra uma intervenção dos ‘‘boinas azuis’’ em Timor Leste. Neste caso, não seria necessário montar urgentemente uma outra resposta, antes que as ‘‘milícias’’ façam correr ali rios de sangue? E as lições recentes de Kosovo poderiam ser o modelo onde encontrar essa resposta.
Em Kosovo, não foi a ONU que interveio contra o genocídio praticado pelos sérvios. Foi a OTAN, uma força sem o mandato da ONU, que bombardeou (de uma maneira aliás atroz, muitas vezes bárbara) a pobre província. Para Timor Oriental, não se deveria buscar uma saída com base neste exemplo? Certamente a OTAN não pode intervir no Oceano Índico. Mas podemos imaginar uma força de emergência, integrada pelos Estados mais envolvidos naquela zona.
Portugal tem responsabilidades. Foi a antiga metrópole de Timor Leste e lá deixou sua cultura (inclusive o catolicismo). A Austrália certamente tem alguma culpabilidade, porque este grande vizinho da Indonésia reconheceu a anexação escandalosa de Timor Leste por parte de Jacarta.
E depois os Estados Unidos. Mas Washington é cautelosa. Cumpre lembrar que, em 76, quando a Indonésia anexou o Timor Leste, os Estados Unidos assistiram tudo sem reclamar contra o massacre: sob a ditadura de Suharto, 300 mil timorenses foram assassinados.
A inércia dos Estados Unidos em 1976 é explicável: estávamos em plena guerra fria e o chefe da diplomacia norte-americana era Henry Kissinger, campeão mundial da ‘‘Realpolitik’’. O silogismo era límpido: Moscou não ama Suharto. Washington não ama Moscou. Logo, Washington ama Suharto.
Agora, as coisas mudaram: a guerra fria está longe, a potência norte-americana é incontestável e Washington gosta de dar lições ao mundo na questão dos ‘‘direitos humanos’’. Se, portanto, a ONU continuar ausente e alheia, seria legítimo que uma força internacional faça correr de volta aos seus covis esses matadores de Timor Leste. Mas depressa! Bem depressa!

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