Fim de Yabrán intriga argentinos
Ariel Palacios
Agência Estado
Arquivo FolhaYabrán teria chamado a políciaPassaram-se somente dois dias desde a morte do empresário argentino Alfredo Yabrán, mas as especulações sobre as estranhas circunstâncias de seu falecimento têm aumentado. Seu suicídio cada vez mais parece uma crônica de uma morte anunciada. Ocorrida na quarta-feira, a morte de Yabrán pode paralisar para sempre as investigações sobre seus vínculos com as máfias e com integrantes do gabinete do presidente Carlos Menem.
O empresário era acusado de ser o mandante do assassinato do fotógrafo José Luis Cabezas e era procurado pela Justiça. Yabrán foi encontrado pela polícia em uma de suas várias fazendas na província de Entre Ríos. A fazenda ‘‘San Ignacio’’ está estrategicamente localizada perto da fronteira com o Uruguai.
Ontem, mais uma suspeita levantou-se sobre seu suicídio: vizinhos da fazenda sustentam que três luxuosos carros foram vistos saindo do lugar, pouco antes da chegada da polícia. Esta notícia reforçou as especulações de que ‘‘enviados da máfia’’, da qual Yabrán seria um dos integrantes, teriam ido à fazenda comunicar ao empresário que precisava se auto-eliminar.
Teriam dito a Yabrán o básico da lei siciliana da ‘‘Omertᒒ: o silêncio absoluto, algo que o empresário dificilmente poderia manter se fosse preso. A pressão para que confessasse poderia ser maior no ano que vem, considerando as possibilidades de que a oposição vença as eleições presidenciais. Yabrán seria a estrela de um ‘‘Nuremberg da Corrupção’’ que os principais líderes da oposição desejam realizar para investigar os casos de corrupção do governo Menem.
O jornal ‘‘Página 12’’ sustenta que Menem pode estar mais envolvido com o empresário do que se imagina. Citando fontes do governo da província de Entre Ríos, afirma que o presidente Menem encontrava-se frequentemente com Yabrán na fazenda vizinha à do empresário, e pertencente a outro poderoso integrante do governo: Hugo Anzorreguy, diretor da SIDE, o serviço secreto argentino.
Mas a revelação que mais chamou a atenção nesta sexta-feira foi a de que antes de suicidar-se, Yabrán teria telefonado para a polícia avisando de sua presença na fazenda. A declaração é de Oscar Chiapetti, diretor do hospital onde foi realizada a autópsia. Na polícia de Gualeguaychú negam-se a fazer comentários sobre o tema. Mas a versão é repetida pelo advogado da família de Yabrán, Pablo Algibray Molina.
A juíza Graciela Laporte, responsável pelo caso, nega que a polícia tenha recebido o chamado telefônico. Além disso, embora diga concordar com a opinião do perito sobre o suicídio de Yabrán, ainda não classificou o processo de investigação como ‘‘suicídio’’.
Outro ponto que chama a atenção de jornalistas, políticos e investigadores que analisam o caso, é a data de duas cartas deixadas por Yabrán aos parentes e à secretária: são de terça-feira, o dia anterior ao suicídio. Esse detalhe reforça a versão de que Yabrán teria chamado a polícia no dia seguinte. Ou senão, de que o empresário possuía uma forte intuição de que seria procurado pela polícia na quarta-feira.
‘‘Tchau’’: assim, laconicamente, o empresário despediu-se de sua família, em uma das duas cartas (e cujo exame grafotécnico ainda não foi realizado). Na outra carta, endereçada à sua secretária, além dos US$ 40 mil destinados a funcionários próximos, Yabrán designava sutilmente seu sucessor com as iniciais ‘‘H.C.’’.
A interpretação é de que se trata de Héctor Colella, velho amigo seu. Colella foi o dono da empresa Oca, uma das empresas que fazem parte do grupo das quais Yabrán sempre negou ser o proprietário. Colella possuía 87% do pacote acionário da Oca em sociedade com Fernando Fiorotto, concunhado de Yabrán. Recentemente, a Oca foi vendida ao grupo Exxel. Nos próximos dias, a Exxel realizaria a segunda parte do pagamento por uma série de empresas atribuídas a Yabrán: US$ 400 milhões.
Colella negou ontem de manhã que seja o sucessor de Alfredo Yabrán: ‘‘Os únicos herdeiros são seus parentes’’, disse. Colella relatou que o empresário lhe telefonou preocupado com sua família e lhe pediu que cuidasse dela. Colella também negou que conhecesse o traficante de armas sírio Monzer Al Kassar.
O traficante sírio, que conseguiu a cidadania argentina rapidamente no início do governo Menem, tinha como homem de confiança no país seu compatriota Ibrahim Al Ibrahim. Este sírio chegou à Argentina após seu casamento com Amira Yoma, irmã de Zulema Yoma, ex-esposa de Menem. O marido da cunhada presidencial logo foi colocado na direção da alfândega do aeroporto de Ezeiza, mesmo sem saber uma palavra de espanhol. Ali, pouco depois, quando dominava alguns rudimentos do idioma, ficou famoso pela frase ‘‘eu fecha os olho, e pacote passar’’ (sic). Isso foi suficiente para que fosse envolvido no escândalo ‘‘Yomagate’’, de lavagem de dinheiro. Ibrahim desapareceu do país e hoje está refugiado na Síria, de onde não sai, apesar dos pedidos de extradição. Na época, falou-se que teria fugido em um avião que teria decolado de uma pista da mesma fazenda onde Yabrán se suicidou.
O sul de Entre Ríos foi motivo, em 1990, de um relatório da DEA, o máximo órgão do governo dos EUA para a investigação do tráfigo de drogas. Segundo o documento, a região estava coalhada de pistas clandestinas.

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