É com um sorriso que a libanesa residente em Londrina, Hian Smaile, olha para a foto da filha, Karina Ali El Majuzoub, 18 anos, que voltou ontem para casa. Mas a alegria para essa família de comerciantes é parcial já que muitos parentes ainda continuam sob ataque israelense no Líbano.
Ela conta que seus pais, os sete irmãos e mais inúmeros sobrinhos e primos não querem abandonar a plantação de trigo no Vale do Bekaa, mesmo vivendo sob risco de bombardeios.
Hian e o marido, Ali Mohamad El Majuzoub, vivem no Brasil desde 1983. Aqui, tiveram os quatro filhos e se firmaram como comerciantes. No último dia 23 de maio, a filha Karina viajou pela segunda vez para o Líbano para realizar o sonho de conhecer a terra da família no verão. A previsão de retorno era para 11 de agosto, mas a viagem de férias teve que ser interrompida em 12 de julho, por causa das bombas jogadas pelo exército israelense em território libanês.
Com o ataque à vila onde estava Karina começava a guerra também para a família que havia ficado no Brasil. ''Ela me ligou pedindo pelo amor de Deus para tirar ela de lá. Caiu um míssel ao lado da casa da minha mãe. Os estilhaços destruíram os vidros e quase derrubou a casa. Noutro dia, uma bomba feriu três agricultores e matou outro numa plantação de batatas'', lamentou Hian.
Três dias depois do início do conflito, Karina conseguiu chegar à Síria, onde permaneceu por cinco dias sem conseguir sair. A mãe disse que a jovem ficou numa casa, ''sem água nem para o banho'', com mais 30 refugiados. De carro, ela conseguiu chegar à Turquia, onde esteve nos últimos quatro dias. Na noite de segunda-feira, ela deixou Adana rumo ao Brasil, já com a saúde debilitada e quase sem nenhum dinheiro. Às 21h15 de ontem, ela pousou no Aeroporto de Londrina, onde foi recebida com festa pela família e amigos.
Mas a agonia de Hian e família não acabou com a chegada da filha. Todos seus familiares permaneceram no Vale do Bekaa e dizem que não vão abandonar a terra onde cresceram e onde vivem como plantadores de trigo e comerciantes. ''Eles não têm como deixar tudo para trás'', argumentou a libanesa, completando que onde a família vive ''não tem Hezbollah, nem nada disso''. Hian disse que tira forças da garra e a fibra demonstrados pelos libaneses que permanecem no país, mesmo correndo risco de vida.
Ela citou como exemplo os jovens universitários que estão indo para os campos apanhar batatas para que a produção não seja perdida. ''Tenho certeza de que tudo vai acabar e eles vão reconstruir tudo, com a cabeça erguida'', concluiu.
Para brasileiros e libaneses que ainda têm parentes no Líbano, Ali Mohamad orienta que enviem e-mails, com telefones de contatos, para a embaixada brasileira através do endereço [email protected].

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