Fidel manda sua mensagem política
France PresseEncontro de gigantesFidel Castro discursa. O líder cubano não se fez esperar para executar um leve cruzar de espadas com o seu famoso visitante, que também não se acanhou, e falou no mesmo diapasãoA recepção marcial a João Paulo II na sua chegada parecia pouco apropriada ao mensageiro de Cristo e da paz. Com seu lento e preciso passo de ganso, a guarda de honra, reluzindo no uniforme verde-oliva da revolução cubana, se apresentou diante do sumo pontífice. Acontece, porém, que os rifles portados pela guarda eram de madeira. Um detalhe típico do realismo mágico que impera nesta verde ilha que cria tanta inquietude e incerteza para os analistas de Washington com seus esquemas racionais e globais. Mal o papa desceu vagarosamente a escadaria do avião, se apresentou o anfitrião, o presidente Fidel Castro, envergando elegante terno e com aparência saudável. Todavia, antes que o líder cubano chegasse a saudar o sumo pontífice, este beijou a terra cubana erguida pelas mãos de quatro crianças.
Mas, o líder cubano não se fez esperar para executar um leve cruzar de espadas com o seu famoso visitante, que também não se acanhou. Para Fidel Castro, o discurso de boas-vindas ao seu ilustre visitante, observado por milhões de telespectadores ao redor do mundo, foi uma oportunidade excepcional para enviar uma clara mensagem política: como aconteceu com os mártires cristãos do Império Romano, o povo cubano está sendo caluniado e martirizado pelo império moderno.
Mas primeiro falou como porta-voz dos povos oprimidos e exterminados pelo Velho Mundo. A terra que o senhor acaba de beijar está honrada com sua presença. Não encontrará aqui aqueles pacíficos e bondosos habitantes nativos que a povoavam quando os primeiros europeus chegaram a esta ilha. Os homens foram quase todos exterminados pela exploração e pelo trabalho escravo que não conseguiram resistir.
Depois, continuou: Hoje, Santidade, de novo se tenta o genocídio, com a pretensão de render pela fome, enfermidade e asfixia econômica total um povo que se nega a submeter-se aos ditames e ao império da mais poderosa potência econômica, política e militar da história, muito mais poderosa que a antiga Roma, que, durante séculos, fez devorar pelas feras aqueles que se recusavam a negar a sua fé.
Como aqueles cristãos atrozmente caluniados para justificar os crimes, nós, tão caluniados quanto eles, preferimos mil vezes a morte do que renunciar a nossas convicções. Como a Igreja, a revolução também tem muitos mártires.
Mas os EUA não foram o único alvo da ira política de Fidel. Também teve a sua vez a Espanha, cujo novo governo conservador tem criticado constantemente o regime cubano. A colonização espanhola, lembrou, exterminou 70 milhões de índios e dois milhões de negros. O discurso foi o mais recente exemplo de uma série de elocuções públicas que poderiam figurar nos anais históricos como exemplos magistrais de revisionismo histórico, dignos de Tzvetan Todorov, Umberto Eco e Naom Chomsky.
O tom da resposta de João Paulo II foi mais suave, embora sua substância não tenha deixado nada à imaginação. Com esta viagem apostólica, venho, em nome do Senhor, para confirmá-los na fé, animá-los na esperança, alentá-los na caridade para compartilhar seu profundo espírito religioso, seus esforços, alegrias e sofrimentos. No cumprimento do meu ministério, não tenho deixado de anunciar a verdade sobre Jesus Cristo, que nos revelou a verdade sobre o homem, sua missão no mundo, a grandeza de seu destino e sua inviolável dignidade.
Que Cuba se abra com todas suas magníficas possibilidades ao mundo e que o mundo se abra para Cuba, para que este povo que, como todo homem e nação, busca a verdade, que trabalha para progredir, que anseia pela concórdia e pela paz, possar olhar para o futuro com esperança.
De sua parte, a retórica de Fidel Castro tem como um de seus objetivos principais a demonização da política externa da União Soviética, desde Stalin até o presente - uma reviravolta depois de o governo de Moscou tinha sido proclamado como o aliado mais fiel da revolução cubana.
Outro objetivo é identificar o nacionalismo polonês do sumo pontífice com o nacionalismo comunista da revolução cubana. Isto significa que, uma vez que os inimigos de Fidel Castro sonham que a visita do papa tenha o mesmo efeito que inspirou na Polônia - a desintegração do sistema comunista - o líder cubano já se adiantou, sinalizando que, longe de ser um inimigo, o papa compartilha os ideais de independência e justiça social da revolução.





