Fidel exige retorno de garoto cubano
Associated Press
Um transtornado presidente Fidel Castro exigiu ontem que os Estados Unidos devolvam ao pai, dentro de 72 horas, um garoto cubano resgatado no mar, alertando que o povo de Cuba está perdendo a paciência.
Se isso não acontecer, haverá milhões de pessoas nas ruas exigindo a liberdade do garoto, declarou Castro, em comentário transmitido pela rádio e pela televisão estatais na manhã de ontem.
É difícil conter a população quando ela está irritada com o caso do garoto Elian Gonzalez, de cinco anos, garantiu Castro. Ele afirmou que Elian foi sequestrado pelo governo dos Estados Unidos.
Em uma atitude incomum, o governo cubano estacionou ontem dezenas de soldados em frente à Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana a missão do governo norte-americano em Cuba.
A razão para tal atitude não estava imediatamente clara. Normalmente, há apenas três ou quatro soldados em frente à missão. Ligações pedindo comentários da missão sobre o caso eram transferidas diretamente para o Departamento de Estado, em Washington.
O porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, James P. Rubin, disse na semana passada que o governo cubano enviou uma nota diplomática à missão dos Estados Unidos em Havana em 27 de novembro pedindo a devolução da criança. Mas ele informou que o caso estava sob responsabilidade da corte estadual da Flórida porque esta tem precedentes em disputas por custódia.
O conflito veio à tona apenas uma semana antes das negociações de migração entre Estados Unidos e Cuba em Havana. O pai de Elian e seus quatro avós querem a criança de volta a Cuba. Mas o governo norte-americano liberou a custódia do garoto para seus tios-avós residentes em Miami.
Segundo os atuais acordos migratórios, o governo dos Estados Unidos estaria prestes a encerrar sua política de aceitar a entrada de cubanos resgatados no mar e passar a devolvê-los à ilha. Cuba prometeu evitar o tipo de fugas ilegais que passou a ser comum em 1994, em um êxodo de verão que já levou dezenas de milhares de cubanos às costas de Flórida em embarcações precárias.
Ao receber a delegação cubana no aeroporto após esta ter retornado da cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Seattle, Castro culpou o governo dos Estados Unidos pelo acidente marítimo na costa da Flórida que causou a morte da mãe de Elian e de outras dez pessoas.
Os Estados Unidos são os únicos responsáveis pelas tragédias produzidas pelas fugas ilegais, disse Castro sobre o acidente, descrito pela Guarda Costeira norte-americana como um caso estranho de imigração ilegal. Castro afirmou que o padrasto do menino, também falecido no acidente, organizou a fuga ilegal.
No passado, Cuba reclamou que as autoridades norte-americanas não fizeram o suficiente para conter a crescente onda de imigração ilegal.
O garoto foi encontrado no Dia de Ação de Graças agarrado a uma tubulação nas águas de Fort Lauderdale. Duas outras pessoas também foram resgatadas com vida.
A mãe do garoto afogou-se quando o barco superlotado em que viajavam afundou durante a travessia de 145 quilômetros até a Flórida.
O pai da criança, Juan Miguel González, de 31 anos, disse que sua esposa tirou seu filho de Cuba sem seu conhecimento e sem sua permissão. Ele pediu ao Ministério de Relações Exteriores de Cuba que o ajude a trazer seu filho de volta.
Autoridades norte-americanas informaram que a corte estadual da Flórida deve decidir se Elian será criado nos Estados Unidos ou devolvido ao pai e aos avós em Cuba. Mas as autoridades cubanas rejeitaram esta possibilidade, alegando não confiarem em juízes corruptos de um Estado no qual os exilados anti-Castro têm forte poder político.
Castro declarou-se furioso pela maneira com que seus inimigos em Miami utilizaram o caso de custódia para proveito próprio e criticou imagens transmitidas pela televisão com a criança cercada de brinquedos e vestindo uma camiseta da Fundação Nacional Cubano-Americana liderada por seus influentes inimigos políticos.
Especialistas norte-americanos em legislação disseram que a matéria a ser debatida tem dois princípios conflitantes: a custódia da criança, que na maioria dos casos é garantida ao pai biológico sobrevivente, e seu status imigratório. O Ato de Reajuste Cubano de 1966 garante a qualquer cidadão de Cuba que chegue ao solo norte-americano o direito de ficar.
Os dois países não mantêm relações diplomáticas e os Estados Unidos sustentam um embargo comercial de quase quatro décadas contra Cuba com o intuito de derrubar o presidente Fidel Castro.





