O presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou ontem, em Lisboa, a disposição do governo brasileiro de enviar uma missão policial-militar, sob mandato das Nações Unidas, para o Timor Leste.
Trata-se de um ilhota de cerca de 800 mil habitantes, que foi de Portugal até 1975, foi depois ocupada e anexada pela Indonésia e, agora, vive uma situação de conflito agudo entre os que querem a independência e os que defendem a integração definitiva com a Indonésia.
No início do mês, milícias armadas fizeram uma matança de 62 pessoas, aparentemente independentistas, em operação pela qual o primeiro-ministro português, Antônio Guterres, responsabilizou ‘‘inteiramente a Indonésia, que armou as milícias’’.
A declaração conjunta dos dois países, emitida também ontem, contém um apelo ‘‘às autoridades da Indonésia no sentido de pôr cobro à crescente violência contra a população que se vem registrando no território.
O terror voltou a reinar ontem em Dili, capital do Timor Leste, onde as milícias pró-indonésias iniciaram a caça aos partidários da independência, diante da passividade da polícia e do exército, com um primeiro saldo de 30 mortos.
Segundo uma autoridade do governo, pelo menos 30 pessoas morreram neste sábado, no conflito generalizado que começou depois de um desfile de milícias nacionalistas, contrárias à independência do Timor Leste, em Dili.
‘‘Informações provenientes de Dili indicam que cerca de 30 pessoas morreram até agora’’, disse o ex-governador geral do Timor Leste, Mario Viegas, em Jacarta. Um primeiro balanço dava conta de 8 mortos.
Um dos primeiros objetivos foi a casa de Manuel Carrascalao, veterano da luta do Timor pela independência, que albergava em seu jardim uma centena de refugiados vindos do oeste do país onde as milícias lançaram uma ofensiva no início do mês.
Seu filho Manuelito foi assassinado, segundo a família, assim como um número indeterminado de pessoas que haviam encontrado refúgio ali.
Além da casa de Carrascalao, no centro da cidade, a algumas centenas de metros do comando militar indonésio, boatos não confirmados falam de ataques à sede do Conselho Nacional da Resistência Timoresa (CNRP), aberta quando parecia possível uma saída negociada para o conflito timorês.
Várias casas de personalidades favoráveis à independência, em especial Leandro Issac, coordenador político do CNRP, foram queimadas, assim como em vários outros pontos da cidade, por onde é impossível circular.
Pouco antes das 15H15 locais (04h15 de Brasília), um grupo de milicianos fez uma demonstração de força diante do Hotel Makhota, onde há vários jornalistas estrangeiros destacados para Dili. Cerca de cem tiros foram disparados contra as vidraças do hotel, onde também estão hospedados autoridades da Indonésia e comandantes do exército.
O exército e a polícia estão totalmente ausentes das ruas desta pequena localidade à beira do mar, que está totalmente paralisada pelo medo.
As milícias são acusadas de massacres como a da igreja de Liquisa, onde morreram entre 25 e 50 pessoas. Elas recebem o apoio do exército da Indonésia, que - pelo menos em Dili - tem facilitado suas ações há 48 horas.

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