Ariel Palácios
Agência Estado
De Buenos Aires
‘‘Todos os argentinos querem um país diferente’’. Com estas palavras, o presidente eleito da Argentina, Fernando De La Rúa, dirigiu-se ontem à população, para anunciar o fim da era Menem. Ao seu redor, ao pé do Obelisco, símbolo da cidade de Buenos Aires, a multidão aglomerada comemorava. Não era o milhão de argentinos que comemorou a vitória de Raúl Alfonsín no mesmo lugar em 1983, nem as mais de 500 mil pessoas que deram exuberantes vivas a Carlos Menem em 1989. Somente 50 mil pessoas celebraram pacatamente, a maioria militantes e curiosos.
Os ‘‘aliancistas’’ comemoravam de forma contida: enquanto De La Rúa recuperava a Casa Rosada para a UCR e seu novo aliado, a Frepaso, a perda da província de Buenos Aires para os peronistas prenunciava que está pela frente um governo onde o poder será limitado, e será necessário pactuar com os cada vez mais influentes governadores peronistas.
Segundo os últimos números, De La Rúa, candidato da coalizão UCR-Frepaso, obteve 48,5% dos votos; o peronista Eduardo Duhalde conseguiu 38%, e o ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo 10,15% dos votos. Com esta eleição, a Aliança eleva sua participação na Câmara de Deputados de 106 para 124 deputados, o que a deixa próximo de conseguir quórum próprio de 129 parlamentares.
Os peronistas perderam cadeiras na Câmara, passando de 122 para 102. Outros partidos caíram de 31 cadeiras para 29, entre as quais estão os parlamentares daquele que será o fiel da balança, o ‘‘Ação pela República’’, do ex-ministro Domingo Cavallo: passou de três para 12 deputados. As seis províncias com eleições para governadores dividiram-se meio a meio entre peronistas e aliancistas. Na contagem final, há 14 peronistas e oito aliancistas.
De La Rúa não quis anunciar os nomes de seu futuro gabinete. ‘‘Esse anúncio levará algum tempo’’, disse. De La Rúa viajará ao Brasil em uma ou duas semanas, na primeira viagem na categoria de presidente eleito. Ele agradeceu o telefonema do presidente FHC e declarou que ‘‘deve ser recriada a base da confiança entre nossos países, para que o Mercosul seja para o bem de todos e para o mal de ninguém’’.
De La Rúa recebeu os cumprimentos de Duhalde, que declarou que ‘‘teremos um presidente confiável’’. Duhalde disse que a derrota não foi totalmente avassaladora, consolando-se com a vitória peronista em Buenos Aires. Os benefícios dessa vitória, no entanto, serão mais do governador eleito, o peronista Carlos Ruckauf.
A derrota da Aliança UCR-Frepaso nessa província atinge De La Rúa, que terá todas as províncias importantes comandadas por peronistas. Mas a principal vítima da derrota não é a UCR de De La Rúa, e sim o Frepaso do vice-presidente eleito Carlos ‘‘Chacho’’ Álvarez. Em dezembro passado, quando foram repartidas as candidaturas na coalizão, a frepasista Graciela Fernández Meijide – autora da vitória da Aliança na eleição parlamentar de 1997 – ficou encarregada de vencer os peronistas no seu mais forte bastião. Mas o trunfo não se repetiu.Derrota em Buenos Aires para os peronistas limitará poder do novo governo, que será obrigado a negociar com a nova oposição
France PresseMercosulFernando de La Rúa não quis anunciar gabinete e prepara viagem ao Brasil para recriar ‘‘base de confiança’’

mockup