Fernández toma posse e destaca foco no crescimento econômico
Novo mandatário da Argentina prometeu colocar o bem-estar dos argentinos à frente do pagamento da dívida externa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Novo mandatário da Argentina prometeu colocar o bem-estar dos argentinos à frente do pagamento da dívida externa
Sylvia Colombo – Folhapress 
Buenos Aires – Alberto Fernández tomou posse nesta terça-feira (10) como presidente da Argentina. Em seu discurso no Congresso, o novo mandatário defendeu a conciliação política no país e prometeu colocar o bem-estar dos argentinos à frente do pagamento da dívida externa. O vice-presidente Hamilton Mourão representou o Brasil na cerimônia em Buenos Aires.

Sobre a dívida com o FMI (Fundo Monetário Internacional), Fernández disse que a ideia é pagar, "mas antes temos que crescer", e a que negociação com o fundo estava já sendo feita neste sentido. "Não podemos apresentar uma solução que comprometa o futuro de milhões de argentinos", declarou.
"Estamos numa emergência social em que é preciso começar pelos últimos", afirmou. Ele disse que há "muros" por superar, os "muros da pobreza, da desigualdade, das disparidades do país”. “Esses são os muros que existem, não os muros ideológicos. Temos que deixar de apostar na polarização, digo isso para os que votaram em mim e para os que não me votaram", afirmou. Disse ainda que é necessário um pacto para superar "esse presente penoso, acabar com as dívidas de nossos compatriotas e a do país."
Fernández culpou a política econômica do governo de Mauricio Macri e afirmou que "o Estado estará presente, oferecendo linhas de créditos e de bônus, além de recursos para investimentos". Acrescentou ainda que, nos próximos dias, haverá o anúncio de medidas para atender aos mais pobres e que chamará um compromisso de empresas e produtores para que os preços não aumentem.
Sobre o Mercosul, se referiu especialmente ao Brasil: "Com o Brasil queremos construir uma relação que beneficie a toda a região e ao Mercosul e nossa relação irá ocorrer muito acima das ideologias de conjuntura".
Do lado de fora do Congresso, em Buenos Aires, onde ocorreu o juramento de Fernández, e da Casa Rosada, havia muito público e uma grande quantidade de membros de organizações sociais kirchneristas, como o Movimento Evita, a Juventude Peronista, Unidos y Organizados, e outros.
No Congresso, estavam parlamentares, ex-presidentes, ministros, delegações estrangeiras e familiares dos eleitos. O agora ex-presidente Mauricio Macri apareceu depois do juramento, como manda o protocolo, entregou o bastão e a faixa presidencial a Fernández, e deu-lhe um abraço. Os dois se cumprimentaram de modo efusivo e trocaram algumas palavras. Já Cristina o cumprimentou com frieza, apenas apertando sua mão e sem olhá-lo nos olhos. Logo depois disso, Macri deixou o recinto.
CRISTINA
Muito se discutiu sobre qual será a atuação de Cristina Kirchner em sua volta ao poder na Argentina, agora na condição de vice de Alberto Fernández. Agora, o cenário está delineado. A ex-mandatária terá função estratégica junto ao Congresso e aos ministérios e também coordenará a relação do Executivo com as províncias.
Segundo a lei argentina, o vice-presidente comanda as sessões do Senado. Cristina, porém, fará um pouco mais do que isso. Assim como designou Fernández para ser o candidato a presidente em sua chapa, ela e seu grupo montaram as listas de candidatos à Câmara de Deputados e ao Senado. Em ambas as Casas, o peronismo terá maior número de vagas.
Na Câmara de Deputados, terá como líder da bancada Sergio Massa, que foi chefe de gabinete no primeiro mandato de Cristina e abdicou da candidatura presidencial neste ano para apoiar a chapa kirchnerista.
Outro com papel importante será Máximo Kirchner, filho de Cristina e líder da agrupação La Cámpora, que contará com representantes em postos-chave - como no Ministério do Interior, a ser ocupado por Eduardo "Wado" de Pedro.
Massa e Máximo garantem a influência de Cristina em duas comissões estratégicas no Congresso. Na do orçamento, a vice-presidente terá como influenciar os repasses para as províncias, o que a coloca como operadora política de Fernández junto aos governadores.
A outra área à qual Cristina terá acesso direto é a da designação de juízes. Uma reforma, de 2017, passou a exigir aval do Congresso para algumas nomeações, como em caso de falta dos magistrados ou de substituição dos titulares. Esse ponto é crucial, uma vez que ela é investigada em nove casos de corrupção. Ainda há outros processos que envolvem líderes kirchneristas.
A decisão de colocar Martín Guzmán como ministro da Economia se deu, também, por insistência de Cristina, uma vez que é seguidora do ganhador do Nobel Joseph Stiglitz, padrinho do escolhido. Foi ela quem deu a palavra final entre os que disputavam a vaga.
Cristina Kirchner, portanto, será também a líder do peronismo dentro do atual governo. Por mais que tenha havido um entendimento entre ela e Fernández sobre quem aparece em primeiro plano e quem atua nos bastidores, basta olhar as decisões das últimas semanas para que fique claro que ela será bem mais do que uma vice-presidente no governo.


