WASHINGTON - A senadora Diane Feinstein, democrata da Califórnia, anunciou na semana passada que devolverá cerca de US$ 12 mil em contribuições de campanha que recebeu de pessoas associadas ao grupo Lippo, o conglomerado sino-indonésio que conseguiu um extraordinário nível de acesso à Casa Branca nos primeiros quatro anos do governo Clinton. E agora está no centro das suspeitas do crescente escândalo sobre financiamento político e tráfico de influência em Washington. Dias antes, o líder do Partido Democrata no Senado, Tom Daschle, de Dakota do Sul, anunciara o retorno de US$ 7 mil.
Uma reportagem publicada ontem pelo Washington Post esclarece os motivos que levaram os dois senadores a devolver o dinheiro. De acordo com o jornal, em junho do ano passado o FBI alertou seis congressistas, entre os quais Feinstein, de que eles haviam sido escolhidos como possíveis alvos de um esforço do governo chinês para receber contribuições ilegais de campanha.
As informações, que foram dadas aos legisladores em reuniões individuais, incluíam a seguinte declaração: ‘‘Temos razões para acreditar que o governo da China poderá tentar fazer contribuições a membros do Congresso através de doadores asiáticos’’.
Feisntein é membro da subcomissão do Senado para assuntos asiáticos. Em maio do ano passado, ela escreveu um artigo para o jornal Los Angeles Times defendendo a posição da administração de renovar o status comercial de ‘‘nação mais favorecida’’ comercialmente para a China, que seria aprovado no mês seguinte.
Em seu artigo, Feinstein argumentou que condicionar uma decisão de política comercial favorável à China ao comportamento do país na área de direitos humanos seria ‘‘ineficaz, na melhor das hipóteses, e contraproducente, na pior’’. Não há indício de ligação entre a contribuição que a senadora recebeu do grupo Lippo e sua defesa da desvinculação entre as políticas comercial e de direitos humanos de Washington em relação à China.
Mas a revelação do esforço chinês para ganhar aliados no Congresso forçará os legisladores a endurecer suas posições em relação a Pequim e trará novas dificuldades para a estratégia de Clinton de criar laços mais estáveis com a China, se não a inviabilizar.
Segundo o Post, o FBI informou o Conselho de Segurança da Casa Banca sobre o plano chinês na mesma época em que alertou os congressistas. Por que, então, a administração não tomou, já naquela época, as devidas precauções? Um funcionário da presidência disse ao jornal que a informação sobre os esforços chineses no Congresso não chegaram a Clinton nem a seus principais assessores. Essa explicação é, obviamente, de difícil digestão. E a defesa que a Casa Branca apresentou até agora não fará cessar o bombardeio de perguntas.
Para desassossego de Clinton, o repórter que tem revelado as informações sobre a ‘‘conexão chinesa’’ é Bob Woodward, que ficou famoso pelas reportagens que levantaram o escândalo do Watergate e forçaram o presidente Richard Nixon a renunciar. Provocado a comparar os dois escândalos, Woodward disse ontem num programa de televisão que, numa escala de zero a dez, em que o Watergate é 9.9, o Chinagate ‘‘está entre 3 e 4, mas cresce um décimo de ponto diariamente’’.

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