Fauna australiana é atraente e perigosa
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sábado, 19 de maio de 2001
Mike Corder Associated PressDe Sydney 
Cães selvagens atacam um menino de nove anos. Tubarões matam três banhistas em menos de um ano. Víbora morde diversas vezes suas vítimas e seu veneno resulta fatal. Esses e outros ataques contra turistas colocam a Austrália em um dilema: como atrair viajantes à selva e protegê-los dos mesmos animais que os atraem. É parte da atração. Não são apenas cães selvagens. São também crocodilos e tubarões, diz John Morse, gerente da Comissão de Turismo do governo. O perigo existe aqui como em outras partes do mundo, acrescentou. Todos precisam estar conscientes, mas Deus nos livre de esterilizar o país ao ponto de as pessoas não quererem mais vir.
Enquanto os funcionários do setor turístico tentam proteger os viajantes, os defensores da vida natural dizem que são os animais que precisam de proteção contra os seres humanos que invadem seu hábitat. Nove das 10 víboras mais venenosas do mundo são australianas.
Em Sydney, as pessoas costumam bater os sapatos, pois a aranha mais venenosa do mundo gosta de esconder-se dentro deles. No norte da Austrália, o crocodilo de água salgada alcança oito metros de comprimento, circula pelos pântanos e só ataca seres humanos. As praias do norte do país ficam fechadas durante metade do ano porque uma espécie de medusa capaz de matar uma criança nada perto da orla e, em 2000, três em cada 10 ataques fatais de tubarões em todo o mundo ocorreram na costa australiana.
A polêmica aumentou com a recente morte de Clinton Gage, de nove anos, na ilha de Fraser, destino turístico altamente concorrido em frente à costa oriental, no Estado de Queensland. Cerca de 200 dingos cães selvagens com pêlos de cor bege andam em liberdade pela ilha, um deserto arenoso com algumas árvores de eucalipto e um pouco de selva subtropical. Uma das principais atrações é a possibilidade de ver os dingos de perto.
Retirar os dingos da ilha de Fraser seria como retirar os antílopes de Serenghetti ou os leões do Parque Nacional Kruger, na África do Sul, diz John Sinclair, naturalista e membro do grupo Defensores da Ilha de Fraser. Mas os cães selvagens não serão mais vistos buscando restos de comida em acampamentos. Depois da morte do menino e dos ferimentos causados a seu irmão de sete anos, os guardas florestais começaram a disparar cada vez que os animais se aproximavam de grupos de humanos. As autoridades de Queensland apressaram-se a garantir aos turistas que seriam protegidos.
Lugares como a ilha de Fraser vivem do turismo. Segundo a Comissão de Turismo, 1,3 milhões de estrangeiros visitaram o país no primeiro trimestre de 2001 e geraram ingresso de US$ 141 milhões. Queensland é um dos destinos preferidos.
O risco de ataques de animais é relativamente baixo em toda a história, sabe-se de apenas duas mortes causadas pelos dingos se comparado, por exemplo, com o risco de morte por afogamento. Mas as medidas de proteção ao turismo enfurecem os ambientalistas, que garantem que os turistas ávidos por tirarem fotos ao lado de um dingo aproximam-se demais do animal ou tentam atraí-lo com comida. Não se pode receber 300 mil turistas por ano e esperar que não ocorram ataques, diz Bruce Jacobs, diretor da Associação Nacional de Dingos.
A diretora do Conselho de Conservação de Queensland, Felicity Wishart, pediu que se deixe de matar dingos até que especialistas encontrem uma solução melhor para o problema. Não nos parece que esta seja a solução e temos de manter a calma, comenta. A situação é trágica, mas devemos lembrar que aconteceu porque pessoas deram de comer aos dingos, acrescentou.


