Steven Ambrus
e Joe Contreras
Da Newsweek
Numa barraca feita de plástico preto, no interior meridional da Colômbia, o tribunal está em sessão. A clareira lá fora fervilha de guerrilheiros marxistas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Seu comandante está sentado no interior, como juiz, trajando uniforme de camuflagem e uma camiseta com a imagem de Che Guevara.
Cinco lavradores estão de pé diante dele, apresentando irritados suas alegações conflitantes sobre os direitos a um trecho de terra de 50 hectares ali perto.
Um camponês de 80 anos afirma que a terra era toda sua até que um senhor rural ausente o logrou, mandando-o embora das terras e vendendo-as em lotes aos outros quatro.
‘‘Quero ela de volta’’, berra o camponês. Pedindo silêncio com um gesto, o juiz anuncia seu veredicto: ‘‘Vamos dividir os lotes desse senhor rural e vocês terão as terras em partes iguais. Terra não é de senhores rurais, mas de quem trabalha nela.’’ A palavra do juiz é lei – literalmente. Ele e outros comandantes rebeldes governam um enclave de 30,4 mil quilômetros quadrados que foi oficialmente cedido às Farc pelo presidente da Colômbia, Andrés Pastrana, um ano atrás. Alguns colombianos chamam-no ironicamente de República Independente das Farc.
O governo esperava mostrar boa vontade e induzir os rebeldes a acabar com o movimento guerrilheiro iniciado 35 anos atrás – uma guerra que custou mais de 35 mil vidas na última década.
Mas a suposta ‘‘zona desmilitarizada’’ dos rebeldes tornou-se uma fortaleza a partir da qual os 15 mil calejados combatentes das Farc podem desfechar ataques em todo o país, armados com mísseis terra-ar, milhares de fuzis de assalto alemães-orientais recém-adquiridos e sua força aérea, pequena mas em crescimento.
A ‘‘Newsweek’’ soube que os rebeldes, empregando milhões de dólares sugados da indústria da cocaína, contrataram mais de 30 conselheiros militares de países distantes, um dos quais é o Irã. Conselheiros do governo dos Estados Unidos para política exterior receiam cada vez mais a idéia do surgimento de um novo Estado fora-da-lei, armado, perigoso e financiado por dinheiro das drogas, bem no coração da América do Sul.
Na semana passada, os rebeldes desfecharam sua mais feroz ofensiva em quatro meses, usando o enclave como trampolim. Num só dia, unidades das Farc atacaram 13 cidades e aldeias em cinco departamentos (Estados) rurais, deixando 10 policiais e 60 guerrilheiros mortos. Mais de 3 mil guerrilheiros participaram de uma operação que se irradiou da zona desmilitarizada.
A cidade de Puerto Inirida, capital de província perto da fronteira com a Venezuela, quase caiu em poder dos atacantes antes que o governo enviasse caças a jato para repeli-los. Na cidade de Dolores, centro da Colômbia, guerrilheiros bombardearam a delegacia de polícia e executaram policiais que já haviam deposto as armas, rendendo-se. Numa ofensiva maciça semelhante que envolveu cerca de 4 mil guerrilheiros em julho, os rebeldes chegaram a 45 quilômetros de Bogotá antes que o Exército os rechaçasse. Centenas de pessoas foram mortas.
Negociações de paz prosseguem com altos e baixos no último ano. Mas, mesmo com as conversações em andamento, os combates prosseguem e as Farc continuam fortalecendo-se militarmente. Segundo um veterano general do Exército colombiano, os guerrilheiros compraram oito helicópteros. Fontes da espionagem colombiana informam que os rebeldes também compraram duas dezenas de mísseis terra-ar SAM-12, capazes de derrubar aviões do governo a quatro quilômetros de distância. As mesmas fontes dizem que os rebeldes contrataram os serviços de conselheiros militares da Nicarágua e de El Salvador, iranianos especialistas em explosivos e ex-terroristas argentinos e chilenos, para os ajudar a treinar combatentes das Farc na zona desmilitarizada.
‘‘As Farc não descartam a possibilidade de uma vitória sobre o Exército’’, adverte o ex-conselheiro de Segurança Nacional Alfredo Rangel Surez. ‘‘A zona está sendo usada pelas Farc para se fortalecer militar e economicamente, o que lhes permitiria dobrar seu número, para 30 mil membros.’’ No momento, a prioridade máxima das Farc é consolidar suas posições nos cinco departamentos rurais da zona desmilitarizada. A capital extra-oficial é San Vicente del Cagun, poeirenta cidade de fronteira com 14 mil habitantes.
Era um lugar sem lei antes de sua tomada pelos rebeldes. Brigas em bares, atos de violência política e rancores pessoais costumavam matar entre 20 e 45 pessoas por mês. Poucas semanas depois de sua tomada pelos guerrilheiros, estes reprimiram a embriaguez em público e os delitos comuns como roubos e violência familiar. Apenas cinco homicídios foram registrados em San Vicente nos últimos 12 meses.
Os rebeldes consideram seu enclave um perfeito laboratório social para testar suas teorias sobre o combate à corrupção e a reforma da sociedade. ‘‘Como potenciais governantes do país, temos muito que aprender’’, diz Fernando Caicedo, comandante das Farc. ‘‘Mas temos demonstrado à população que nossas propostas políticas, econômicas, sociais e militares são sérias.’’ Apesar da retidão que parecem demonstrar em algumas questões, os comandantes se sentem muito à vontade com o tráfico de drogas e o recrutamento de crianças como combatentes. Meninos de até 12 anos são incorporados à força, e a principal agência da Colômbia para refugiados, Codhes, calcula que mais de 2 mil civis fugiram da zona, em grande parte para evitar que seus filhos sejam recrutados para o serviço militar da guerrilha.
Cerca de 20% do cultivo total de coca da Colômbia ocorre em áreas rurais controladas pelas Farc. Comandantes rebeldes costumavam ficar – tecnicamente – à margem do negócio das droga, cobrando 10% de imposto sobre a compra de folhas de coca no atacado. Hoje, algumas unidades das Farc perderam esses escrúpulos: Compram-nas dos agricultores e as vendem diretamente aos cartéis das drogas. Com 37 campos de pouso à sua disposição na zona desmilitarizada, os rebeldes agora prestam um serviço de entregas que despacha cocaína processada para qualquer ponto do país, segundo funcionários da espionagem colombiana. Comandantes das Farc admitem francamente que cobram imposto do comércio de coca, mas sempre negam que tenham envolvimento na produção e tráfico de drogas.
Ao mesmo tempo, um Estado policial pleno está surgindo nos cinco departamentos. Os líderes rebeldes não toleram dissenções. Vários juízes e outros funcionários locais foram expulsos do enclave. Outros não tiveram tanta sorte. No começo deste mês, ao terminar um trabalho de três semanas em que levantou os fatos da região, uma delegação da Anistia Internacional acusou unidades das Farc de ser responsáveis pela execução de seis civis e pelo desaparecimento de oito. Vários grupos de defesa dos direitos humanos informam que rebeldes mataram pelo menos nove cristãos evangélicos em meados do ano, ao que parece por suspeitarem que as vítimas pertenciam a esquadrões da morte direitistas. ‘‘Temos a coragem de admiti-lo’’, diz Caicedo. ‘‘Fizemos algumas incursões para capturar agentes de espionagem do governo, e alguns foram executados.’’
Eunice Morales tem um tipo próprio de coragem. No mês passado, um grupo de guerrilheiros bem armados deteve seu marido de 31 anos, Herms, sob suspeita de espionagem. Levaram-no embora para interrogatório. Movida pelo desespero, Eunice falou sobre a triste sorte do marido à delegação da Anistia Internacional, em visita à área. Graças à pronta intervenção da anistia, os guerrilheiros libertaram Herms, ileso. ‘‘Todo mundo aqui tem um medo enorme de falar’’, diz Eunice sobre a vida na área controlada pela guerrilha. ‘‘Não é justo sofrer tanto abuso.’’
Supunha-se que o fim da guerra fria devesse assinalar o fim dos grandes movimento revolucionários marxistas como as Farc. Depois que a ajuda soviética secou, os rebeldes esquerdistas de El Salvador, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), não teve muita escolha e aderiu à paz. Da mesma forma, os camaradas sandinistas da Nicarágua precisaram autorizar eleições democráticas que os removeram do poder. Mas, ao contrário da FMLN e dos sandinistas, as Farc têm auto-suficiência financeira. Sob o comando do líder camponês Manuel Marulanda, de 69 anos, as Farc evoluíram deixando de ser um bando maltrapilho de comunistas linha-dura e se tornando uma empreitada florescente, com leis próprias. O grupo recolhe cerca de US$ 600 milhões anuais recebendo resgates de sequestrados, pagamentos arrancados com extorsão e os chamados impostos sobre a produção e tráfico de drogas na área sob controle dos rebeldes.
O desgastado governo da Colômbia está praticamente só no combate aos guerrilheiros. O Congresso dos EUA aprovou assistência de US$ 287 milhões à Colômbia este ano, tornando o governo de Bogotá o maior beneficiário da ajuda externa americana fora do Oriente Médio. Mas a assistência fica muito aquém dos US$ 1,5 bilhão em ajuda de emergência que o chefe do programa antidrogas de Bill Clinton, Barry McCaffrey, pediu que se concedesse ao governo Pastrana, em agosto. E Washington concentra sua atenção quase exclusivamente no combate às drogas. Um grupo de 75 especialistas do Exército dos EUA supervisiona o treinamento de um novo batalhão antinarcóticos, de 950 homens, do Exército colombiano, e o Pentágono (Departamento de Defesa) anunciou planos para treinar mais dois batalhões antidrogas de elite.
Nenhuma autoridade dos EUA parece interessada em despachar soldados americanos para o campo de operações contra os barões das drogas ou os rebeldes. Os riscos ficaram evidentes em julho, quando cinco militares americanos morreram numa queda de avião, possivelmente acidental, perto de território sob controle guerrilheiro, no sul da Colômbia.
Nem o Congresso nem o governo Clinton parecem demonstrar muito interesse em afundar no atoleiro. ‘‘Eles podem justificar o apoio à Colômbia em matéria de drogas, pois entorpecentes são causa de preocupação nos EUA’’, diz Michael Shifter, alto membro do Diálogo Interamericano, grupo de pesquisas e programas governamentais com sede em Washington. ‘‘Mas, como a União Soviética já não existe, combater guerrilhas não faz sentido.’’ Pastrana é pressionado cada vez mais por seus generais para que retome o enclave rebelde. Seus índices de aprovação pelo povo baixaram para apenas 22%. Mas até agora o presidente parece decidido a não mudar de rumo. Os colombianos o elegeram no ano passado endossando sua promessa de que iniciaria negociações com as Farc. Os rebeldes ameaçam abandonar o processo de paz se perderem seu enclave. Mas Pastrana e os que lhe são leais não parecem dispostos a reconhecer a derrota.
‘‘A zona desmilitarizada foi criada para ser espaço de negociação longe do conflito’’, diz Fabio Valencia Cossio, ex-senador e membro da equipe de Pastrana para a negociação da paz. ‘‘Ela será mantida apenas enquanto o processo de paz avançar.’’ Indício evidente de que, para Valencia, o processo está avançando.
Analistas militares dizem que durante anos os rebeldes não representarão séria ameaça às maiores cidades da Colômbia. As Farc continuam sendo um movimento rural, com pouco apoio popular nas favelas e cortiços de Bogotá e Medellín. Ainda assim, o processo de paz pouco contribuiu para proteger os colombianos contra a influência predatória dos rebeldes. A predileção das Farc pelo sequestros de profissionais liberais de classe média e abastados senhores rurais tornou perigosas as viagens por terra em muitas partes do país. O controle efetivo que elas exercem sobre as áreas rurais ultrapassa as fronteiras formais da zona desmilitarizada, o que garante um próspero futuro para a indústria de cocaína da Colômbia.
E, a cada nova ofensiva que desfecham, os guerrilheiros fazem com que as conversações de paz pareçam uma impostura. ‘‘Arranjamos uma mixórdia em escala máxima’’, adverte um cético assessor do Congresso dos EUA que acompanha a evolução dos acontecimentos na Colômbia. ‘‘Não sei para onde esse país está indo. O processo de paz significa conciliação. Impossível sentar-se à mesa e negociar com o inimigo. Isto só o encoraja.’’
Muitos colombianos duvidam que as Farc pretendam negociar seriamente o fim da guerra. Na semana passada, o próprio Pastrana disse claramente que duvidava da sinceridade dos rebeldes. ‘‘Eles estão propensos a semear a morte e destruição’’, esbravejou o presidente. ‘‘Com seus ataques insensatos, as Farc traem a confiança que o governo – e todos os colombianos – depositaram em seu desejo declarado de ter paz.’’ A paciência do povo está-se esgotando – e, com ela, talvez se vá a última esperança de o país ver o fim da carnificina.A ‘‘República das Farc’’: um novo Estado ilegal na América do Sul? Muitos acham que sim e que a guerrilha esquerdista está se fortalecendo
Arquivo FolhaEnclaveRebeldes ocupam uma área de 30,4 mil quilômetros quadrados, oficialmente cedida por Andrés PastranaArquivo FolhaManuel Marulanda e Andrés Pastrana tentam manter o diálogo pela paz

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