France PressVolta ao passadoMaurice Papon, responsável pelas ‘‘questões judaicas’’ no governo Vichy, foi prefeito da polícia de Paris com Charles de Gaulle e ministro com Valery
Giscard d’EstaingUm ex-alto funcionário, Maurice Papon, está sendo julgado, em Bordéus, por ter mandado crianças judias para a Alemanha, em 1943. Nessa ocasião, a França entrega-se a um de seus passatempos preferidos: a volta ao passado.
Num ponto, todos os franceses (menos os fascistas da Frente Nacional, de Le Pen) estão de acordo: foi um passado sinistro, o do período entre 1940-1944. Em 1940, as Panzerdivisionnen nazistas varreram a França. A república caiu em pedaços e foi substituída por um ‘‘Estado Francês’’ instalado em Vichy, um balneário no centro do país, entregue às mãos cansadas do marechal Pétain, que aceitou colaborar com Hitler. Um francês, porém, recusou-se a aceitar a derrota: o general De Gaulle, que foi para Londres e criou a ‘‘França Livre’’. Durante esses quatro anos houve, portanto, duas Franças: a de Vichy e a de Londres. A da derrota e a da coragem.
Mas, dessas duas Franças, qual foi a verdadeira? Esse é o debate que o processo contra Papon reacende de repente. Debate antigo, por sinal. Ao voltar para a França, em 1944, de Gaulle responde, a todos os que lhe pedem para restabelecer a República Francesa: ‘‘Não. A República Francesa nunca foi abolida. Ela estava em Londres, comigo.’
Essa tese, até agora, tinha sido aceita. A França estava em Londres. O que havia em Vichy era apenas um fantasma, chamado marechal Pétain, que governava um país habitado por fantasmas, 40 milhões de fantasmas. Hoje, porém, há quem ouse contradizer a palavra augusta do general de Gaulle. E o estranho é que o primeiro a perpetrar esse crime de lesa-majestade foi, dois anos atrás, Jacques Chirac, ou seja, um gaullista de quatro costados. Para Chirac, era um tanto simplista perdoar a França por todos os crimes que ela cometeu, entre 1940-1944, com o pretexto de que não era em Vichy, mas em Londres, que ela estava, escondidinha no gabinete do general de Gaulle.
A tese de Chirac não agrada a todos os gaullistas. O chefe do partido gaullista, Philippe Seguin, contradiz ruidosamente o seu chefe, Chirac, e volta ao dogma forjado pelo general de Gaulle ao afirmar: ‘‘O que aconteceu na França, entre 1940 e 1944, não pertence à História da França.’
Prodigiosa polêmica! Quer dizer, então, que para preservar a cor imaculada da França basta passar uma esponja em tudo o que aconteceu no tempo dos nazistas? Mas isso é absurdo: todas as grandes instituições do Estado, o Judiciário, os médicos, a Igreja, os jornalistas, todo mundo foi nas águas de Pétain. Até 1942, Pétain desfrutava de uma inaudita popularidade. De Gaulle, pelo contrário, era desconhecido, inexistente ou, então, detestado. Havia apenas um punhadinho de heróis, dentro da França, lutando contra a ocupação.
Os gaullistas de 1997, tendo à frente Philippe Seguin, acham que, ao se dizer que, durante esses quatro anos, a França não estava somente em Londres mas também na própria França, o que se está tentando é macular a memória de de Gaulle. Esse raciocínio é dos mais estranhos pois, a meu ver, o heroísmo, o gênio de de Gaulle torna-se ainda mais acentuado se pensarmos que ele foi um dos poucos a aceitar a derrota.
Num outro plano, os que querem negar a existência de Vichy, expulsar da História da França esses anos fétidos, têm de fazer um incrível passe de mágica. Se essa regra fosse aceitável, ela abriria, na História da França e do mundo inteiro, uma porção de buracos, de vazios, de anos ausentes, cada vez que um governo se comportasse mal. Seria o caso de expulsar da História o sangrento período do Terror, durante a Revolução Francesa? Teríamos, assim, uma História feita sob medida, e cada um de nós pinçaria no passado só os pedaços que nos agradam.
Não seria mais sadio assumir a nossa herança em sua totalidade, com todas as suas luzes e sombras? E dizer: entre 1940 e 1944, havia 40 milhões de habitantes na França e a maior parte deles aderiu entusiasticamente à colaboração, junto com Pétain. Ao mesmo tempo, a honra foi salva por um visionário que se instalou em Londres. E, milagre, quando de Gaulle voltou à França, em 1944, a maioria dos franceses aderiu a ele com o mesmo entusiasmo!

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