Os estudantes reformistas indonésios, que há dois anos ajudaram a derrubar o ex-presidente Suharto, reagiram com irritação ontem quando seu julgamento por corrupção foi adiado devido à ausência do réu por razões médicas.
‘‘Isto é uma comédia’’, gritou um líder estudantil ovacionado pelos cerca de 200 manifestantes concentradas no entrada do edifício ministerial onde o julgamento por corrupção começou sem o réu e foi adiado depois de uma hora de debates.
A audiência ‘‘não pode continuar hoje (ontem) e fica adiada. Será reiniciada dentro de duas semanas, para ser preciso no dia 14 de setembro, às 10 horas’’, havia declarado o juiz Lalu Mariyun.
Um dos advogados, Juan Félix Tampubolon, entregou à corte um documento de sua equipe particular de 23 médicos, que detalha o estado de saúde de Suharto, de 79 anos.
O boletim médico, muito técnico, estabelece que Suharto foi vítima de três ataques cardíacos desde junho de 1999 e sofre de hipertensão, diabetes, arritmia cardíaca e problemas renais. Segundo seus médicos, a qualquer momento pode sofrer um novo ataque do coração.
Suharto, de 79 anos, é acusado de desviar US$ 571 milhões de dinheiro público durante seus 32 anos no poder em proveito de amigos e parentes, através de fundações beneficentes.
‘‘Continuaremos pressionando para conseguir um julgamento popular e não o julgamento que vimos hoje, que não passa de uma farsa’’, afirmou o porta-voz do grupo City Forum.
‘‘Nos próximos dias, ocuparemos as ruas em grande número e atacaremos edifícios símbolos do poder de Suharto’’, acrescentou. ‘‘Se não houver uma justiça verdadeira, o povo fará justiça por conta própria’’, gritava outro manifestante.
‘‘Estamos extremamente preocupados e somos pessimistas, especialmente porque o homem que exerce a presidência deste país prometeu perdoar Suharto’’, afirmava um jovem manifestante, lembrando que o presidente Adburrahman Wahid se comprometeu a indultar o ex-ditador se for declareado culpado.
‘‘Eu era muito otimista quando Gus Dur chegou ao poder’’, afirmou um estudante, utilizando o apelido do presidente Wahid. ‘‘Mas agora começamos a ver a realidade, que o sistema judicial está tomado pela gente de Suharto’’, acrescentou.
Foram os estudantes indonésios que em maio de 1998 ajudaram a derrubar Suharto com manifestações de rua em massa. O general Suharto dirigiu a Indonésia com mão de ferro por 32 anos, antes de se demitir em um contexto de revolta e decadência econômica.

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