Falhas nos dois motores causaram a tragédia do Concorde
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de julho de 2000
Associated Press De Paris 
O trem de pouso e dois motores do Concorde que caiu na terça-feira perto de Paris causando a morte de todos os seus 109 ocupantes e de outras 4 pessoas em terra apresentaram sérios problemas depois de decolar do Aeroporto Charles de Gaulle. Os dados foram divulgados ontem pela comissão oficialmente encarregada de investigar o acidente, com base em dados registrados nas caixas-pretas recuperadas horas depois da queda. Até agora, sabia-se que o motor número 2 do Concorde do qual uma peça havia sido substituída minutos antes tinha apresentado problemas técnicos que causaram um incêndio ainda antes de o avião levantar vôo.
Temporariamente (durante a decolagem) os parâmetros do motor número 1 caíram (o motor começou a falhar), diz o comunicado da comissão oficial divulgado ontem. O avião tinha iniciado o vôo a menos de um minuto, quando os parâmetros do motor número 1 começaram a decrescer outra vez.
A torre do Charles de Gaulle chegou a alertar o comandante Christian Marty sobre o incêndio em um dos motores, mas a essa altura, o Concorde já desenvolvia uma velocidade superior a 300 km/h e não havia como abortar o procedimento de decolagem. O experiente piloto, de 54 anos dos quais passou mais de 30 pilotando jatos de grande porte como Boeings e Airbus e comandava o Concorde desde o ano passado , informou a torre que decolaria assim mesmo, viraria o avião e aterrissaria outra vez.
O problema em outro motor, aliado ao fato de o piloto não conseguir recolher o trem de aterrissagem, impediu o Concorde de ganhar altura suficiente para que Marty tentasse um pouso de emergência no vizinho aeroporto de Le Bourget ou mesmo no Charles de Gaulle. Com o incêndio de um motor e falhas em outro ambos do lado esquerdo , o avião acabou caindo na área de dois hotéis da cidadezinha de Gonesse, a 15 quilômetros de Paris.
Especialistas estimam que a avaria do motor número 2 causou todos os demais danos que culminaram com a queda do Concorde. Com a quebra de algum de seus componentes, a turbina passou a espalhar fragmentos de metal em brasa na fuselagem do avião. Esses fragmentos teriam danificado um dos tanques de combustível (causando o incêndio), a outra turbina, localizada ao lado da primeira, e o mecanismo do trem de pouso.
O motor número 2 foi reparado a pedido do comandante Marty que na véspera, ao chegar de Nova York, percebera um defeito no reverso da turbina. Esse dispositivo é usado para inverter a potência dos motores e ajudar a frear o avião na hora da aterrissagem. Um defeito nesse mecanismo causou a queda do Fokker 100 da empresa brasileira TAM em outubro de 1996, ocasionando a morte de 99 pessoas.
Restos do aparelho foram encontrados ao longo de toda a trajetória do avião, acrescentou a nota da comissão investigadora. Em particular, foram encontrados restos de pneu.
Todos os dados dos dois elementos da caixa-preta do Concorde acidentado o gravador de cabine e o registrador de informações de vôo puderam ser plenamente recuperados pela equipe de investigadores. O cruzamento desses dados pode esclarecer definitivamente o que aconteceu nos breves 13 minutos de duração do vôo 4590 da Air France, que partiu de Paris com destino a Nova York.
Na cidade americana, 96 turistas alemães mortos no acidente embarcariam num cruzeiro pelo Caribe até o Equador. Entre os passageiros mortos havia também um austríaco, um americano e dois dinamarqueses. Em meio aos nove membros da tripulação, quase toda francesa, havia outro cidadão alemão. As quatro pessoas mortas em terra estavam no Hotelissimo de Gonesse.
As autoridades francesas anunciaram anteontem o encerramento dos trabalhos de resgate e identificação dos cadáveres. Todos os corpos foram trasladados para o Instituto Médico-Legal de Paris.
Familiares das vítimas que chegaram principalmente da Alemanha nos dois últimos dias estão reunidos no Hotel Hilton e a Air France montou uma central de informação e atendimento para eles no Aeroporto Charles de Gaulle.
Porta-vozes da companhia aérea informaram ontem que a empresa vai adiantar aos parentes das vítimas US$ 20 mil da indenização e arcar com todas as despesas de funeral.
O navio alemão MS Deutschland zarpou ontem de Nova York, sem os cem passageiros alemães que sonharam em realizar um maravilhoso cruzeiro. Dezenas de pessoas, agitando lenços brancos para dar um comovido adeus ao MS Deutschland. Do navio, muitos passageiros agitavam lenços, os braços, despedindo-se de Nova York.


