Associated Press
De Viena
O presidente austríaco, Thomas Klestil, autorizou ontem uma coalizão integrada pelos conservadores de Wolfang Schuessel e os extremistas de direita de Joerg Haider a formar o novo governo da Áustria apesar de protestos internacionais e ameaças de isolamento político feito pelos parceiros europeus da Áustria.
O gabinete, chefiado por Schuessel, líder do Partido Popular Austríaco (VPOE), tomará posse hoje às 11 horas GMT (9h de Brasília), informou um porta-voz do Palácio Hofburg, residência oficial do Chefe de Estado. Haider, chefe do Partido da Liberdade (FPOe), não terá nenhum cargo no gabinete, mas indicou para vice-chanceler Susanne Riess-Passer, membro destacado da agremiação direitista.
Klestil adotou a decisão depois de estudar detalhadamente o programa administrativo de cem páginas da coalizão e de obter de Schuessel e Haider a assinatura de uma ‘‘declaração sobre os valores fundamentais da democracia européia’’. Redigido pelo próprio Klestil, o documento contém um artigo de repúdio ao passado nazista da Áustria e reconhecimento das atrocidades cometidas na época contra a pessoa humana.
Klestil hesitou até o último momento, chegando a vetar as indicações de dois dirigentes direitistas para ocupar ministérios – Himar Kabas (Defesa) e Thomas Prinzhorn (Infra-Estrutura). Kabas foi rejeitado por sua ‘‘violenta campanha política em Viena’’ e Prizhorn por seus ‘‘descarrilamentos verbais’’. Haider substituiu-os por Michael Schmid e Herbert Scheibner. Karl-Heinz Grasser, também do FPOe, ocupará o Ministério das Finanças. Ele é porta-voz na Áustria do grupo automobilístico canadense Magna International Inc. E o agora espinhoso cargo de chefe da diplomacia austríaca terá como titular Benita Ferrero-Waldner, do VPOE.
‘‘Se eu tiver de tomar juramento desse governo, não estarei fazendo isso por convicção própria, pois acho que a Áustria ficará prejudicada em termos internacionais’’, lamentou Klestil em entrevista a jornais vienenses, publicada poucas horas antes de ele receber os líderes da coalizão que quebrou 30 anos de hegemonia política do Partido Social-Democrata no país. Nas eleições de 3 de outubro, o FPOe, de Haider, transformou-se na segunda força política do país.
A presidência da UE, apoiada pelos EUA, ameaçou isolar politicamente seu parceiro na comunidade no caso da formação de um governo integrado pelos xenófobos de Haider. A ameaça foi reiterada pela Comissão Européia (órgão executivo da UE) e pelo Parlamento Europeu (legislativo da UE). Vários governos europeus tornaram pública sua oposição a Haider – principalmente França, Bélgica, Itália e Alemanha. Ontem, o governo belga chegou a insinuar que a UE não precisa da Áustria (com governo xenófobo).
Haider marcou sua trajetória política por um discurso racista e xenófobo, favorável à expulsão dos imigrantes do país, contrário à expansão da UE e repleto de elogios à política trabalhista de Adolf Hitler e às SS, ‘‘compostas de homens honrados’’. Quando ele e Schuessel chegaram pela manhã ao Palácio Hofburg para reunir-se com Klestil, foram recebidos por uma multidão de austríacos que, desde a noite anterior, protestavam contra a presença de ‘‘racistas e xenófobos na direção dos destinos do país’’.
O primeiro país a adotar medidas práticas contra o novo governo austríaco foi Israel. O primeiro-ministro israelense Ehud Barak decidiu retirar o embaixador israelense de Viena, medida aplaudida pelo presidente Ezer Weizman. O governo israelense anunciou também que não concederá visto para entrada no país a Haider. O líder neonazista austríaco manifestou recentemente intenção de ir a Jerusalém para explicar pessoalmente suas posições. Diante das pressões internacionais sobre o país, Haider decidiu atenuar seu discurso e até mesmo alterou alguns princípios programáticos do partido. Ontem, tanto ele quanto Schuessel reiteraram que a Áustria é um país democrático e respeitador, como tal, das liberdades e direitos humanos.

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