Exploração sexual martiriza crianças da América Latina
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de novembro de 2000
France Presse De San José 
Com suas vidas e sonhos desfeitos, milhares de crianças latino-americanas são vítimas, todo dia, de uma das mais dolorosas formas de abuso e severa violação dos direitos humanos: exploração através da prostituição, a pornografia e o turismo sexual.
A exploração sexual existe virtualmente em todos os países da América Latina e está geralmente vinculada à pobreza, aos meninos de rua, ao consumo de drogas e ao turismo sexual, conclui um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Este grave problema, que segundo organismos defensores da infância goza de certa impunidade na América Latina, esteve na agenda de discussão dos governantes que participaram, no Panamá, a X Cúpula Ibero-americana, dedicada às crianças e aos adolescentes, e encerrada ontem.
Se ficamos somente com mais uma foto como o único resultado concreto da reunião dos presidentes, vai ser muito triste, declarou à AFP Bruce Harris, diretor regional da organização Casa Aliança, vencedora do prêmio Conrad Hilton por seu trabalho de proteção à infância.
Segundo diversos estudos, 40 milhões de menores na América Latina vivem nas ruas ou passam os dias nas ruas, onde se transformam em presas fáceis de doenças, drogas e abusos, entre os quais a exploração sexual.
Atrás de cada criança explorada sexualmente há, segundo as pesquisas, histórias de pobreza, violência doméstica, desintegração familiar, maus-tratos.
Um recente estudo do Congresso Mundial contra a Exploração Sexual das Crianças revelou que 47% das meninas exploradas sexualmente na Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Paraguai foram vítimas de abuso e violação em seus próprios lares. Quase a metade começou a se prostituir entre os 9 e 13 anos de idade, e entre 50% e 80% delas consumiam drogas, segundo informe, patrocinado pela Unicef.
Além das drogas, as menores estão expostas à gravidez e doenças como a Aids: em 1998, dos 400 mil latino-americanos que se infectaram, 8 mil eram meninos e meninas que não tinham ainda 14 anos.
Na Venezuela, 40 mil menores podem estar se prostituindo, segundo o Instituto de Capacitação e Pesquisa e o Centro de Pesquisa Social, Formação e estudos da Mulher.
Somente na Cidade do México, 12 mil crianças são vítimas da exploração sexual, que é feita sob coação, depois de terem sido sequestradas, vendidas, enganadas com pressão econômica para sobreviver nas ruas ou ajudar a família, admitiu o governo do Distrito Federal, num documento recente.
Em Assunção, capital do Paraguai, e em Ciudad del Este, 65% das mulheres na prostituição são menores, 76% dos casos de abuso sexual no Equador envolve meninas e, no Chile, 57% das vítimas de estupro têm entre 5 e 15 anos, segundo a Unicef.
Muitas meninas e jovens são recrutadas por gigolôs nas cidades latino-americanas, o que se agravou ainda mais com o auge da indústria do turismo sexual. Existem redes organizadas para oferecer menores a turistas, com catálogos e contatos com motoristas de táxis, gerentes de boates, donos de bares, hotéis e casas de massagem, e agora também por vídeo, fotos e Internet.
Qualquer campanha para terminar com a exploração sexual infantil também deve ser uma campanha contra a pobreza e a desigualdade na distribuição da riqueza e os recursos entre os países economicamente desenvolvidos e em desenvolvimento, afirmou Harris.


