Com suas vidas e sonhos desfeitos, milhares de crianças latino-americanas são vítimas, todo dia, de uma das mais dolorosas formas de abuso e severa violação dos direitos humanos: exploração através da prostituição, a pornografia e o turismo sexual.
‘‘A exploração sexual existe virtualmente em todos os países da América Latina e está geralmente vinculada à pobreza, aos meninos de rua, ao consumo de drogas e ao turismo sexual’’, conclui um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Este grave problema, que segundo organismos defensores da infância goza de certa impunidade na América Latina, esteve na agenda de discussão dos governantes que participaram, no Panamá, a X Cúpula Ibero-americana, dedicada às crianças e aos adolescentes, e encerrada ontem.
‘‘Se ficamos somente com mais uma foto como o único resultado concreto da reunião dos presidentes, vai ser muito triste’’, declarou à AFP Bruce Harris, diretor regional da organização Casa Aliança, vencedora do prêmio Conrad Hilton por seu trabalho de proteção à infância.
Segundo diversos estudos, 40 milhões de menores na América Latina vivem nas ruas ou passam os dias nas ruas, onde se transformam em presas fáceis de doenças, drogas e abusos, entre os quais a exploração sexual.
Atrás de cada criança explorada sexualmente há, segundo as pesquisas, histórias de pobreza, violência doméstica, desintegração familiar, maus-tratos.
Um recente estudo do Congresso Mundial contra a Exploração Sexual das Crianças revelou que 47% das meninas exploradas sexualmente na Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Paraguai foram vítimas de abuso e violação em seus próprios lares. Quase a metade começou a se prostituir entre os 9 e 13 anos de idade, e entre 50% e 80% delas consumiam drogas, segundo informe, patrocinado pela Unicef.
Além das drogas, as menores estão expostas à gravidez e doenças como a Aids: em 1998, dos 400 mil latino-americanos que se infectaram, 8 mil eram meninos e meninas que não tinham ainda 14 anos.
Na Venezuela, 40 mil menores podem estar se prostituindo, segundo o Instituto de Capacitação e Pesquisa e o Centro de Pesquisa Social, Formação e estudos da Mulher.
Somente na Cidade do México, 12 mil crianças são vítimas da exploração sexual, que ‘‘é feita sob coação, depois de terem sido sequestradas, vendidas, enganadas com pressão econômica para sobreviver nas ruas ou ajudar a família’’, admitiu o governo do Distrito Federal, num documento recente.
Em Assunção, capital do Paraguai, e em Ciudad del Este, 65% das mulheres na prostituição são menores, 76% dos casos de abuso sexual no Equador envolve meninas e, no Chile, 57% das vítimas de estupro têm entre 5 e 15 anos, segundo a Unicef.
Muitas meninas e jovens são recrutadas por gigolôs nas cidades latino-americanas, o que se agravou ainda mais com o auge da indústria do turismo sexual. Existem redes organizadas para oferecer menores a turistas, com catálogos e contatos com motoristas de táxis, gerentes de boates, donos de bares, hotéis e casas de massagem, e agora também por vídeo, fotos e Internet.
‘‘Qualquer campanha para terminar com a exploração sexual infantil também deve ser uma campanha contra a pobreza e a desigualdade na distribuição da riqueza e os recursos entre os países economicamente desenvolvidos e em desenvolvimento’’, afirmou Harris.

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