Europa faz vistas grossas às atrocidades russas
Gilles Lapouge
Agência Estado
De Paris
Os europeus não são poltrões: a Áustria tem idéia disso. Os 15 da União Européia (UE) não têm medo de pôr a Áustria sob observação e não mais falar bom dia para os ministros austríacos, enquanto o partido populista desse fascista e xenófobo que se chama Joerg Haider fizer parte do governo de Viena. Bem enrascados, os austríacos!
Ainda na segunda-feira, a ministra israelense de Imigração, Juli Tamir, exortou os judeus austríacos a abandonar seu país e emigrar para Israel, onde encontrariam refúgio. No dia seguinte, ela desmentiu a declaração.
É verdade que os valores invocados por Haider são abomináveis e sempre revestidos de um lúgubre tom nazista. Apesar de tudo, é preciso reconhecer que, até o momento, Viena nada fez de irreparável ou vergonhoso e sujeita-se às regras da UE. Não se pode dizer o mesmo de um outro país, que, embora não pertença à UE, tem sua parte mais viva no continente europeu: a Rússia.
Na Rússia, embora nenhum dirigente profira ignomínias comparáveis às de Haider, os soldados, aviões e tanques destróem toda uma região, a Chechênia, com métodos comparáveis aos que Stalin e Hitler empregavam. Ora, essa mesma UE que lança fogo, como um dragão do apocalipse, contra a Áustria de Haider, não faz o menor protesto contra uma operação que, se fosse praticada, por exemplo, na ex-Iugoslávia ou em Ruanda, mereceria o nome de genocídio e o Tribunal de Haia.
Desse genocídio os testemunhos são diários, apesar da rigorosa censura que Moscou impõe a todas as rádios e jornais, não hesitando, se necessário, em dar sumiço em jornalistas independentes, proibir a entrada na capital chechena, Grozny, e negar toda a verdade relativa aos testemunhos incontestáveis recolhidos na Chechênia por jornalistas ocidentais, particularmente sobre os campos de filtragem, nos quais se realizam depurações severas.
Ontem, no Le Monde, Sophie Saab informa sobre uma outra cidade martirizada, Katyr-Yurt. Dois mil combatentes chechenos passaram por Katyr-Yurt após o abandono da capital. Os russos chegaram em seguida, com bombardeios, tanques e soldados. Carnificina! Ointenta por centro dessa vila de 9 mil habitantes foram destruídos.
E o que a Europa faz? Vai recusar-se a cumprimentar os ministros da Rússia? Vai pôr Moscou sob observação? Vai esmagar sob as bombas da Otan os acampamentos de soldados russos, como fez em Kosovo com soldados, mulheres e crianças culpados por serem sérvios? De maneira nenhuma! A única reação dos europeus: a maior parte dos chanceleres do Ocidente foi a Moscou render homenagens ao presidente interino, Vladimir Putin, que tem um ar tão inteligente (e muito provavelmente realmente é).
É provável que os cérebros europeus tenham boas razões para agir assim. No momento, somos obrigados a constatar a irracionalidade e dizer: por motivos, sem dúvida, sérios, mas inexplicáveis, o Ocidente escolheu sustentar o mais depravado dos czares, o prevaricador e grosseiro Boris Yeltsin. E, hoje, por motivos tão sérios quanto inexplicáveis, continua a manter o sucessor miraculoso de Yeltsin e a fazer vista grossa à destruição da Chechênia.





