Europa entre o sonho e a realidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de março de 1998
Gilles Lapouge Agência Estado 
Realiza-se em Londres uma conferência para preparar a adesão à União Européia de uma dezena de novos países, em sua maioria do Leste, entre 2005 e 2010. Esta conferência já está sendo torpedeada porque a Turquia, à qual a Europa deveria oferecer pelo menos um cadeira de dobrar para consolá-la por não figurar no próximo comboio dos novos países europeus, está aborrecida e se recusa a ir a Londres.
Esta é portanto para nós, europeus, uma ocasião para fazer algumas considerações sobre o caminho escolhido pela União Européia. Este caminho é o da ampliação dos membros a qualquer preço, de maneira que daqui a 20 ou 30 anos a União abranja 30 Estados, ou seja, a totalidade (ou quase) do continente.
Nessa data, a Europa, que consagrou mil e quinhentos anos para se dilacerar mutuamente, ficaria unificada pela primeira vez em sua história (moeda, diplomacia, diluição das fronteiras, etc.). Nenhum dos outros dois mastodontes (o norte-americano ou o asiático) poderia rivalizar com o seu poderio.
Este é o sonho. A realidade não é tão dourada assim: atualmente, com apenas 15 países (e países modernos, que funcionam perfeitamente), a União Européia não funciona muito bem: disputas a propósito de tudo e de nada. Rivalidades nacionais. Incapacidade de adotar uma diplomacia única. Disputas enfadonhas entre pescadores franceses, ingleses, nórdicos; entre legumes da Espanha e da França; entre as vacas da França e de todos os outros lugares...
Nestas condições, não conseguimos ver muito bem como a extensão da União Européia a trinta países produziria a unidade nessa colcha de retalhos. Tanto mais que os futuros países a serem integrados (Estados do Leste) são fracos, debilitados e desorganizados. Entre os níveis de vida de um alemão, de um francês e o de um polonês ou de um húngaro existe uma distância de anos-luz...
E em todas a as áreas - educação, pesquisa, nível tecnológico, capacidade financeira - as diferenças são desanimadoras.
Ora, as instituições européias de Bruxelas - pesadas, nocivas e superpovoadas - comprovaram-se inaptas para impor ordem na tropa dos 15 primeiros países da UE. Que milagre Bruxelas poderia operar para conseguir que duas metades da Europa, separadas por meio século e talvez um século de modernidade, marchassem a um só passo e pulsassem com um mesmo coração?
O mais provável é que a União Européia se tornaria um grande navio sem leme, sacudido por todas as tempestades e que se extraviaria rapidamente em meio a um oceano de brumas - uma espécie de vasta zona de livre comércio. (Este seria provavelmente o desejo secreto da Inglaterra, que jamais esquece suas ligações norte-americanas).
Naturalmente, é bem possível que a Europa se reanime e se reforme a fim de evitar o definhamento letárgico de seus grandes sonhos iniciais. Mas, mesmo que as instituições de Bruxelas se fortaleçam, continuará existindo sempre esta falha intransponível: como submeter à mesma regra (a não ser que haja uma centralização política drástica que ninguém deseja) os camponeses da Bulgária com seus carros de boi e os banqueiros eletrônicos de Frankfurt?


