Europa e ONU criticam frase do papa sobre preservativos
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quarta-feira, 18 de março de 2009
Folhapress 
São Paulo- A declaração do papa Bento XVI de que a distribuição de preservativos é parte do problema, e não da solução, da disseminação da Aids no mundo, provocou ontem fortes reações de governos Europeus e da agência da ONU responsável por assuntos relacionados à doença.
Anteontem, ainda no avião que o levava para um giro de seis dias pela África, com escalas em Camarões e Angola, o papa afirmou que políticas desse tipo aumentam o problema. A visão da igreja é a de que a distribuição indiscriminada de preservativos pode estimular um comportamento sexual que ela vê como irresponsável e que estaria na raiz da epidemia de Aids que o mundo viveu em décadas recentes.
A doença já matou mais de 25 milhões de africanos desde o início dos anos 80. Hoje, cerca de 20 milhões de pessoas no continente -o mais atingido pela doença- têm o vírus HIV, e alguns países da região apresentam taxas superiores a 20% da população infectada.
Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores da França expressou ontem uma grande preocupação sobre as consequências das declarações de Bento XVI.
Ao mesmo tempo em que não nos cabe criticar a doutrina da igreja, acreditamos que declarações desse tipo dificultam políticas de saúde pública e (vão contra) o imperativo de proteger a vida humana, disse o porta-voz do ministério.
Em entrevista a uma rádio, a ministra da Saúde da França, Roselyne Bachelot, afirmou que o papa proferiu uma monstruosa inverdade científica, que prestava um desserviço às mulheres africanas.
Em Berlim, os ministros da saúde e do desenvolvimento da Alemanha disseram em nota conjunta que camisinhas salvam vidas, na Europa e em outros continentes.
Também a agência da ONU para a Aids afirmou em comunicado divulgado ontem que uma resposta abrangente -incluindo o uso de preservativos- é essencial para conter a disseminação da Aids.
Bento XVI, no entanto, no segundo dia de sua visita a Camarões, se concentrou em outra questão cara a seu pontificado. Ele criticou todo o etnocentrismo e particularismo excessivos, afirmando que os sacerdotes africanos devem evitar que as missas festivas e animadas com elementos sincréticos locais se tornem obstáculo para o diálogo e comunhão com Deus.
A incorporação de elementos da cultura local em celebrações católicas foi uma das grandes mudanças promovidas na igreja pelo Concílio Vaticano 2º (1962-1965), espécie de reforma que buscou aproximar o catolicismo da modernidade.
O papa Bento XVI, no entanto, discorda dessa interpretação do concílio como um movimento de aggiornamento, e prefere enfatizar a continuidade e a tradição da Igreja Católica. Daí uma série de medidas e interpretações em seu pontificado que buscam minimizar práticas reformistas.
A crítica ao etnocentrismo africano traz algo de paradoxal, diz o antropólogo Otávio Velho, do Museu Nacional. A Igreja Católica Romana é absolutamente etnocêntrica, em termos europeus, e não faz a crítica disso, afirmou. Mas o papa quer que os outros a façam.


