No 60º aniversário do fim da Segunda Guerra na Europa, a União Européia emitiu um comunicado no qual afirma que o ''fim das ditaduras'' no continente não acabou com a Alemanha nazista, mas só em 1989, com a queda do Muro de Berlim. A declaração, uma alusão ao fim do jugo comunista sobre o Leste Europeu, é um potencial gerador de atrito com a Rússia, país com o qual a UE discutirá suas relações em uma cúpula na próxima terça-feira.
''Honramos as muitas vítimas inocentes dos últimos conflitos e aqueles que pagaram o mais alto dos preços pela defesa da liberdade e da democracia'', diz o texto da comissão executiva da UE. ''Lembramos também os milhões de pessoas para quem o fim da Segunda Guerra não representou o fim das ditaduras, para quem a verdadeira liberdade só veio com a queda do Muro de Berlim.''
Com a inclusão de ex-repúblicas soviéticas e ex-países comunistas entre seus membros, que no ano passado aumentaram para 25, a União Européia tem buscado um complexo equilíbrio para comemorar a data histórica.
Moscou receberá amanhã líderes mundiais para as comemorações e uma rodada diplomática. Mas os presidentes da Estônia, da Letônia e da Lituânia boicotarão o evento, assim como o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili.
Os países bálticos, particularmente, vêem o Dia da Vitória (quando a Rússia derrotou a Alemanha) como o início da ocupação soviética, e não como ''libertação''. Os três países exigem um pedido de desculpas de Moscou.
''Nossos vizinhos bálticos continuam a exigir algum tipo de arrependimento da Rússia. (...) Acho que eles querem justificar uma política discriminatória e repreensível de seus governos contra a parte de sua população que fala russo'', escreveu o presidente russo, Vladimir Putin, em um artigo que será publicado hoje no jornal francês ''Le Figaro''.
Recentemente, o vice-presidente da Comissão Européia, Guenter Verheugen, exortou a Rússia a admitir a presença soviética nos países bálticos, cuja independência, em 1991, marcou o início do colapso da União Soviética. Moscou chamou a declaração de ''inapropriada e inoportuna''.
Por sua vez, o presidente da Polônia, Aleksander Kwasniewski, disse esperar o apoio de seus aliados caso Putin fizesse comentários ofensivos a Varsóvia -como glorificar o passado soviético. ''Hoje estamos na UE e na Otan (aliança militar ocidental), esperamos que nossos aliados briguem pela verdade histórica contra qualquer mentira'', disse.
O presidente dos EUA, George W. Bush, que chegou anteontem à Letônia, disse, antes de embarcar, que falaria com Putin sobre o Dia da Vitória ser visto como o início da ocupação dos países bálticos. ''Claro que eu o lembrarei disso'', disse Bush, ao ser indagado pela rede de TV estatal lituana.
O líder americano, que se reuniria com os presidentes dos países bálticos ontem e com Putin hoje, afirmou haver ''grande angústia'' na região báltica porque ''as pessoas não vêem isso como um momento de libertação''.
Bush afirmou discutir frequentemente a questão báltica com Putin. ''Às vezes, meu trabalho é dizer: olha, trate seus vizinhos com respeito. Países livres, democracias na sua fronteira, são bons para você. Seja a respeito dos países bálticos ou da Ucrânia ou da Geórgia, eu dei essa mensagem'', declarou.
O presidente dos EUA, acompanhado da primeira-dama, Laura, foi recebido no aeroporto de Riga pela presidente Vaira Vike-Freiberga. Após a reunião com os três líderes bálticos, ele deveria seguir no fim da tarde para a Holanda, onde visita um cemitério militar americano, e hoje para Moscou.
Na tentativa de equilibrar as celebrações russas com os eventos nos demais países do Leste Europeu, no último dos cinco dias de viagem Bush visitará a Geórgia.

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