EUA terão 1º julgamento por caso de tortura
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domingo, 09 de maio de 2004
Rafael Cariello<br> Agência Folha 
Nova York -O Exército dos Estados Unidos anunciou ontem o primeiro julgamento pela Corte Marcial de um dos acusados de participar dos atos de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque.
Acusado de conspiração para maltratar prisioneiros e falha no cumprimento da função por não impedir abusos, Jeremy Sivits, 24, será julgado a partir do próximo dia 19 de maio, em Bagdá. A corte será aberta ao público. A pena prevista para as acusações é de um ano de prisão, redução da patente e multa. O militar poderá ainda ser desligado do Exército.
Uma fonte militar disse à agência de notícias Reuters que Sivits teria tirado várias das fotos que revelaram os maus-tratos em Abu Ghraib e que vieram a público há duas semanas. O pai de Sivits, Daniel, defendeu o filho afirmando que ele foi enviado ao Iraque sem ter sido treinado para a função que cumpria. Disse ainda que Sivits é um mecânico de caminhões, não um carcereiro, e que apenas seguia ordens ao tirar as fotos dos abusos.
O escândalo atingiu na semana passada o topo da hierarquia militar dos EUA, com congressistas e o jornal ''New York Times'' pedindo a saída do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld.
Na edição desta semana, a revista ''New Yorker'' apresenta uma foto de um prisioneiro iraquiano sendo ameaçados por cachorros. Na imagem reproduzida, um prisioneiro nu aparece caído no chão em primeiro plano. Em sua coxa e perna aparecem feridas cobertas de sangue que parecem ter sido feitas por mordidas. A revista afirma que Rumsfeld tentou acobertar o escândalo por meses. O senador republicano Chuck Hagel também sugeriu, no fim de semana, que o secretário da Defesa pode ter que deixar o cargo. ''Está em questão se o secretário Rumsfeld e, bem francamente, o general (Richard) Myers (chefe do Estado Maior das Forças Armadas) podem ter o respeito e a confiança dos militares e do povo americano para liderar esse país'', disse o senador.
O jornal ''Washington Post'' publicou ontem a notícia de que o Departamento da Defesa dos EUA aprovou, em abril de 2003, técnicas de interrogatório que permitem dificultar o sono do prisioneiro, expô-lo ao calor, ao frio e a outros desconfortos sensoriais (luzes fortes e música alta). A lista de cerca de 20 procedimentos foi aprovada, segundo o ''Post'', pelo topo da hierarquia militar americana e representa o primeiro documento a vir a público registrando uma política oficial dos EUA de permitir certo grau de maus-tratos físicos e psicológicos. Segundo um porta-voz do Pentágono, os procedimentos - aprovados para uso na base de Guantánamo, em Cuba, onde estão detidos acusados de ligação com grupos terroristas - ''são minuciosamente controlados, limitados na frequência e duração e aprovados caso a caso''.


