Paris - Um ano e meio de guerra de todas as formas possíveis, mais de mil soldados mortos, 200 bilhões de dólares gastos na quixotesca aventura de ''libertar o Iraque'': os Estados Unidos são, hoje, incapazes de controlar tanta violência e continuar convencendo o mundo de que a intervenção no país era necessária.
Às vésperas das eleições presidenciais de novembro, os Estados Unidos estão mais sozinhos do que nunca no Iraque, divididos entre a necessidade de fixar as bases para uma estabilidade mínima que permita avançar dignamente e o desejo de sair correndo e deixar o caos em mãos do fraco governo de Bagdá, marionete de Washington.
''Apesar da violência atual, o Iraque tem um primeiro-ministro, um conselho nacional e as eleições continuam previstas para janeiro'', garantiu nesta semana o presidente George W. Bush, assegurando que a ''liberdade faz a paz avançar''.
O otimismo do dirigente é criticado sem piedade pelo líder democrata John Kerry, para quem a instabilidade cresce no Iraque e a violência se espalha, mas Bush continua ''sem dizer a verdade''.
''Nossos inimigos no Iraque se tornam mais agressivos, o Pentágono sabe que regiões inteiras estão em mãos de terroristas e extremistas e que a cada mês que passa a estabilidade e a segurança se afastam mais'', explicou Kerry.
Diante da crescente violência, os soldados americanos no Iraque vivem ''refugiados em seus quartéis'', segundo Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS) e os aliados de Washington no Iraque, poloneses, australianos, japoneses ou britânicos mantêm uma presença discreta enquanto suas tropas não vêem a hora de se retirar, como fez a Espanha em abril.
''Com que finalidade os americanos continuam morrendo'', questionava nesta semana o jornal Los Angeles Times, diante do espantoso número de vítimas militares.
Entretanto, apesar deste panorama desolador, uma pesquisa recente indica que 51% dos cidadãos americanos ainda pensam que a guerra no Iraque ''valeu a pena'' e 46% têm opinião contrária.
Na pesquisa de intenções de votos, ambos os candidatos aparecem muito próximos, com uma ligeira vantagem de 48% a 47% para Kerry, segundo dados divulgados pelo New York Times esta semana.
Para especialistas do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), os Estados Unidos só podem escolher entre ''o mau e o pior'' no Iraque.
''A opção menos pior é continuar aguentando com a maior dignidade possível até depois das eleições americanas. Se Bush ganhar, a pergunta é até quando estarão dispostos a perder vidas e dinheiro'', explicaram.
O último e doloroso golpe para a política de Bush veio do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que avaliou nesta semana que a guerra contra Bagdá foi ''ilegal'' e que é improvável que as eleições previstas para 2005 sejam ''confiáveis''.
''Se Kofi Annan fez estas declarações é porque a situação piorou a tal ponto que a ONU não tem como desempenhar um papel no Iraque'', explicou Guillaume Parmantier, do IFRI.
Enquanto isso, atentados com carro-bomba e explosivos, sequestros, emboscadas e fogo cruzado entre tropas americanas e grupos radicais se tornam parte do cotidiano de milhares de civis iraquianos.

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