Deb Riechmann
Associated Press
A CIA estava informando sobre uma repressão generalizada promovida pelo regime militar no Chile poucos dias depois do golpe de 1973 liderado pelo general Augusto Pinochet, segundo antigos documentos secretos divulgados nesta quarta-feira.
Pinochet e seus oficiais derrubaram Salvador Allende, um marxista que foi escolhido para governar o Chile em eleições democráticas. A eleição de Allende preocupou a administração do presidente Richard M. Nixon, que temia que o Chile poderia tornar-se um bastião comunista na América do Sul.
Apesar do apoio dado pela administração Nixon ao golpe, os arquivos indicam que a CIA estava oferecendo relatos diretos de uma repressão do regime direitista contra a oposição esquerdista. Entretanto, em documentos posteriores a CIA afirmou que alguns relatos de abusos dos direitos humanos eram exagerados.
Dez dias depois do golpe de 11 de setembro, a CIA relatou: ‘‘O espírito que prevalece entre os militares chilenos é usar a atual oportunidade para eliminar todos os vestígios de comunismo no Chile para sempre. Severa repressão está sendo planejada.’’
Em 12 de outubro de 1973, numa revisão altamente secreta da situação no Chile, a CIA relatou: ‘‘O regime não mostra sinais de afrouxamento em sua determinação de resolver rapidamente e decisivamente a questão dos dissidentes... e o banho de sangue continua.’’
O relatório, distribuído para altos oficiais da administração Nixon, acrescentou: ‘‘A linha entre pessoas mortas durante ataques contra forças de segurança e aquelas capturadas e executadas imediatamente tem se tornado cada vez mais obscura.’’
Entretanto, num relatório posterior, de março de 1974, foi dito que acusações de repressão contra Pinochet ‘‘são oriundas de uma campanha mundial orquestrada pelos comunistas para desacreditar a junta. Algumas dessas denúncias são simplesmente falsas, outras são exagerações, ou distorção da realidade’’.
Pinochet, 83 anos, foi preso em Londres em outubro a pedido de um magistrado espanhol, que quer julgá-lo por abusos dos direitos humanos supostamente cometidos por suas forças de segurança durante seu regime, de 1973 a 1990. Pinochet luta contra sua extradição para a Espanha.
Quase todos os documentos tornados públicos hoje são de 1973 a 1978, ‘‘o período das mais flagrantes violações dos direitos humanos no Chile’’, afirmou num comunicado o porta-voz do Departamento de Estado James Foley.
O material inclui cerca de 5 mil documentos do Departamento de Estado, 490 da CIA, 200 dos Arquivos Nacionais, 100 do FBI e 60 do Departamento de Defesa, segundo Foley. O governo tornará públicos no final do ano documentos relacionados com o Chile de 1973 a 1978 e de 1968 a 1973; futuras divulgações irão cobrir o período de 1979 a 1991.
Algum material foi mantido em segredo para proteger a privacidade de pessoas, fontes de informação de inteligência, atividades diplomáticas dos EUA e assuntos de imposição de leis.
Entre os arquivos que continuam longe das vistas públicas estão os documentos sobre o atentado com carro-bomba de 1976 em Washington, a pouco mais de um quilômetro da Casa Branca. Orlando Letelier, um ex-embaixador chileno que se opunha a Pinochet, e um assistente seu, Ronni Miffitt, morreram na explosão.
Uma investigação dos EUA na época concluiu que a conspiração para matar Letelier envolveu oito pessoas, entre elas o chefe da polícia secreta de Pinochet, mas não o próprio ditador.
Os arquivos divulgados ontem devem ajudar a precisar o papel dos Estados Unidos no Chile durante a era Pinochet e seu conhecimento das violações dos direitos humanos.
‘‘É um reconhecimento tácito da administração Clinton de que os Estados Unidos desempenharam um papel nessa triste e lamentável história no Chile e tem uma papel a desempenhar na reparação dos crimes da administração Pinochet’’, afirmou Peter Kornbluh, um analista no National Security Archive.
Discutindo a ascensão de Pinochet ao poder, o assessor de segurança nacional de Nixon, Henry Kissinger, insistiu em seu livro ‘‘The White House Years’’ que os Estados Unidos não desempenharam nenhum papel na ‘‘concepção, planejamento e execução’’ do golpe militar.
Entretanto, persistem questões sobre a extensão do envolvimento de Washington na derrubada de Allende. Os Estados Unidos viam Pinochet como aliado, mas notícias de desaparecimentos forçados e atrocidades contra esquerdistas revoltaram alguns americanos.
Também permanecem perguntas sobre quanto Washington sabia sobre violações dos direitos humanos que Pinochet enfrenta agora em seu julgamento pendente.
‘‘O governo dos EUA começa a sentir a pressão do público norte-americano que eles precisam assumir uma forte posição neste caso e eles precisam esclarecer qual foi o papel dos EUA’’, afirmou Sarah Anderson, do Instituto de Estudos de Política em Washington. ‘‘Eles finalmente estão tomando alguma atitude.’’
Além do caso de Letelier, José Miguel Vivanco, diretor-executivo do grupo Human Rights Watch’s America, e outros esperam que os arquivos irão detalhar o nível de envolvimento de Pinochet na morte de Charles Horman e Frank Teruggi, dois americanos executados em Santiago logo depois do golpe que levou Pinochet à presidência.O governo Nixon sabia da repressão que se seguiu ao golpe de 1973. Pinochet está preso em Londres e pode ser extraditado para a Espanha
Arquivo FolhaLinha duraAugusto Pinochet, de 83 anos, foi preso em Londres em outubroArquivo FolhaO marxistaSalvador Allende, eleito democraticamente, morreu durante o golpe

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