EUA rejeitam exigência de China e Rússia
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terça-feira, 11 de maio de 1999
Paulo Sotero Agência Estado 
Os Estados Unidos rejeitaram ontem exigência da China e da Rússia para que cesse o bombardeio da Aliança Atlântica contra a Iugoslávia antes de o Conselho de Segurança das Nações Unidas reunir-se para considerar a formação de uma força internacional de ocupação do Kosovo - o elemento central da única saída diplomática que a OTAN admite para o conflito, depois que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, entregar os pontos e aceitar a retirada de seus soldados e policiais da província.
Continuaremos a campanha aérea até que todas as condições da Otan sejam atendidas, e isso e apenas isso será motivo para qualquer suspensão do bombardeio, disse o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart, em Washington.
Paralelamente, em Bruxelas, o porta-voz da Otan, Jamie Shea, reiterou a posição da Aliança, minimizando um aparente gesto conciliatório de retirada parcial de suas forças de Kosovo, que Belgrado anunciara na véspera.
Em Pequim, diminuíram as manifestações diante da embaixada dos Estados Unidos para protestar contra o bombardeio acidental da embaixada da China em Belgrado e a televisão mostrou, pela primeira vez, imagens do presidente Bill Clinton numa das três vezes em que ele lamentou o ataque e pediu desculpas publicamente, entre domingo e segunda-feira.
Mesmo assim, as bombas que caíram na representação chinesa na Iugoslávia e a onda de antiamericanismo sancionado pelo governo que ela desencadeou em Pequim complicaram enormemente não apenas a busca de uma solução negociada para o conflito de Kosovo, mas também as próprias relações bilaterais entre os EUA e China.
Na noite de terça-feira, o embaixador da China na ONU, Qin Huasun, deixou clara a diposição de seu país, um dos cinco membros com direito a veto no Conselho de Segurança, de obstruir a aprovação de uma força internacional de intervenção em Kosovo. O plano específico sobre a composição e a missão da força internacional de intervenção em Kosovo é o tema de reuniões que o vice-secretário de Estado dos EUA, Strobe Talbot, tem marcadas para esta semana em Moscou.
O cálculo na administração Clinton é que os russos, que endossaram formalmente o plano de paz da Otan na semana passada, numa reunião de chanceleres do chamado Grupo dos Oito, na Alemanha, convencerão os chineses a não obstruir a aprovação da força internacional pelo Conselho de Segurança.
Seu raciocínio é que o governo de Moscou está interessado em desempenhar um papel importante na solução do conflito e sabe que isso passa pela inclusão do Conselho de Segurança nas deliberações, das quais esteve até agora alijado. A expectativa americana é, assim, que, independentemente de seus gestos e declarações públicas, os russos atuarão nos bastidores para acalmar os ânimos dos chineses e convencê-los a não impedir que o Conselho de Segurança aprove uma resolução sobre Kosovo, pois essa é a forma de reafirmar a importância da ONU como o foro internacional para a solução de conflitos, que interessa também à China.
Bem mais difícil de superar será a crise que o bombardeio equivocado à embaixada chinesa em Belgrado pela Otan criou nas relações sino-americanas.
Segundo o New York Times, antes mesmo do grave incidente, que deixou três chineses mortos e vários feridos, altos funcionários da administração já estavam admitindo que o presidente Bill Clinton perdera a melhor oportunidade para concluir o acordo sobre a entrada da China na OMC durante a visita do primeiro-ministro reformista Zhu Rongji aos EUA, no mês passado.
A busca de tal acordo estava no centro da estratégia da Casa Branca de engajar internacionalmente o país mais populoso do planeta. A confirmação, depois da visita do primeiro-ministro, de que a Pequim plantou espiões nos EUA e obteve segredos nucleares americanos nas últimas duas décadas fez aumentar o sentimento antichinês no Congresso, que terá que aprovar alguns aspectos do acordo de acesso da China à OMC.
Nesse ambiente já deteriorado, vários analistas concluíram que o ataque acidental à embaixada produziu dois efeitos que podem ter inviabilizado o acordo. Na China, ele serviu de pretexto para a mobilização de forças, dentro do governo, contrárias às concessões comerciais que Zhu Rongji anunciou em sua visita aos EUA. Daí - interpretam os analistas - a decisão chinesa de suspender contatos com os EUA em várias frentes.


