Agência Estado
De Washington
O casal brasileiro Margarida e René Bonnetti é acusado pela Justiça americana de manter como escrava a empregada doméstica Hilda Rosa dos Santos, de 65 anos.
Não são incomuns relatos de abusos contra empregadas domésticas estrangeiras que se mudam para os Estados Unidos acompanhando as famílias para as quais trabalham em seus países de origem.
Mais raro é que esses casos se tornem públicos, como aconteceu na semana passada, quando a promotoria federal do Estado de Maryland acusou os brasileiros Margarida e René de tratar sua empregada, Hilda Rosa dos Santos como escrava depois que se instalaram em Gaithersburg, um subúrbio de clase média de Washington, em 1979.
René, um engenheiro, e sua mulher, que tem 46 anos, podem ser sentenciados a até 20 anos de prisão a se forem condenados pelos três crimes de que são acusados: terem mantido Hilda em sua casa uma imigrante ilegal, terem agido dessa maneira para explorar seu trabalho e obter com isso ganhos financeiros e terem agredido Hilda fisicamente e colocado sua vida em risco.
Em depoimento que prestou na semana passada no tribunal federal de Greenbelt, que virou notícia de primeira página do Washington Post, anteontem, Hilda contou as humilhações e agressões que sofreu de Margarida Bonnetti. Analfabeta em português e falando com a ajuda de um intérprete, Hilda disse que uma vez sua patroa jogou-lhe sopa quente no rosto e no peito porque não gostou da forma como ela havia feito a sopa.
Em outra ocasião, Margarida arrancou-lhe os cabelos até sangrar por não aprovar a maneira como ela escovara o cachorro da família. Os abusos chegaram ao conhecimento das autoridades em 1998, depois que vizinhos dos Bonnetti levaram Hilda a um hospital para tratar de um tumor do tamanho de uma bola de futebol no estômago e ela foi entrevistada por assistentes sociais.
Segundo o promotor federal Steven M. Dettelbach, os Bonnetti jamais pagaram salário a Hilda e mantinham a geladeira da casa fechada a cadeado para evitar que a empregada comesse a mesma comida da família.
Quando o casal viajava, Hilda pedia roupa e comida aos vizinhos com a ajuda de cartões com frases em inglês escritas por uma de suas poucas amigas.
John C. Maginnis, o advogado dos Bonnetti, disse que o Rene e Margarida trouxeram Hilda para os EUA para ajudá-la, porque ela tinha problemas com sua família no Brasil.
Mas, segundo o advogado, Hilda, que já trabalhava para os Bonnetti no Brasil, revelou-se ‘‘uma empregada tão espetacularmente incompetente’’ nos EUA que o casal teve que reduzir suas tarefas a ponto de deixá-la praticamente sem ter o que fazer.
Maginnis não explicou por que os Bonnetti não levaram Hilda de volta para o Brasil e contrataram outra empregada, ou simplesmente passaram a viver como seus vizinhos e a esmagadora maioria dos americanos, ou seja, sem empregada doméstica.
A ação contra os Bonnetti não é movida por Hilda, mas pelo governo dos EUA através do ministério público federal do estado de Maryland.
Segundo promotores federais ouvidos pelo Post, o governo tem interesse no caso porque ele é ilustrativo da situação de milhares de empregadas domésticas que são trazidas para os EUA por famílias estrangeiras e submetidas a abusos.
Obviamente, há muitas famílias de estrangeiros que tratam suas empregadas com respeito e as incentivam a aproveitar as oportunidades bem maiores de estudo e aprimoramento pessoal que os EUA oferecem.
Mas a relação tradicional patroa-empregada doméstica, que é difícil mesmo nos países que têm um enorme contingente de mão de obra não qualificada e barata, como o Brasil, raramente sobrevive numa sociedade mais igualitária como bem remunerado.
Uma diarista chega a ganhar US$ 3 mil brutos por mês limpando duas casas por dia, a US$ 75 por cinco a seis horas de trabalho.

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