O presidente George W. Bush pediu ao presidente da Autoridade Palestina, para que ele dê uma chance ao novo primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, para formar seu governo e honrar o compromisso que assumiu durante a campanha eleitoral de buscar a paz no Oriente Médio. Bush repetiu essencialmente a mensagem em conversas que teve como os líderes do Egito, Arábia Saudita, Síria e Jordânia. ‘‘Acho que temos que tomar o Sr. Sharon por suas palavras e estas são que ele quer promover a paz no Oriente Médio’’, disse ele.
A declaração soou mais forte do que parece ser a disposição de engajamento da nova administração num conflito de mais de meio século e que desafiou até hoje todas as tentativas de solução. A eleição do direitista Sharon colocou Bush diante de seu primeiro teste potencial de liderança internacional num momento de reavaliação, em Washington, da participação americana nas negociações no Oriente Médio.
No fim deste mês, o secretário de Estado Colin Powell fará sua primeira visita a região. Mas ele não levará um plano de paz no bolso. ‘‘O objetivo da viagem é compartilhar opiniões e perspectivas com os amigos da região e fazer uma avaliação da situação’’, disse Powell.
O secretário de Estado procurou marcar um primeiro contraste com o presidente Bill Clinton, que mais de uma vez praticamente forçou israelenses e palestinos a sentarem-se à mesa de negociações e investiu o poder e influência dos EUA para forçá-los a um entendimento. ‘‘Nós queremos ajudar’’, disse Powell, depois da eleição de Sharon.
Ele reafirmou o compromisso dos EUA com a segurança de Israel e com a busca paz na região. ‘‘Mas israelenses e palestinos precisam querem a paz mais do que nós desejamos que eles cheguem a um acordo’’, afirmou Powell. A conselheira de segurança da Casa Branca, Condoleezza Rice, foi mais incisiva. Segundo ela, o tipo de envolvimento direto e íntimo do presidente e da Casa Branca num esforço de mediação, como ocorreu na administração Clinton, ‘‘está encerrado’’.
Num sinal dessa postura mais reservada e cautelosa, o governo Bush não nomeará um embaixador especial para substituir Dennis Ross, diplomata que desempenhou esse papel no governo do pai do atual presidente e nos oito anos de Clinton.
O próprio Ross não desaprova o caminho escolhido por Bush. ‘‘Há momentos em que é útil dar um passo atrás e reavaliar a situação’’, disse ele. ‘‘Acho que a administração deve tomar o tempo que for necessário para fazer os contatos com os líderes da região e fazer sua própria avaliação.’’
Outros especialistas na região duvidam, porém, que os fatos permitirão a Bush e Powell manter por muito tempo a atitude mais distante que assumiram. Alguns prevêem que a rejeição dos países moderados árabes a Sharon complicará rapidamente os cálculos de Washington. ‘‘Nós conhecemos Ariel Sharon bastante bem’’, disse o ex-embaixador dos EUA em Israel, Samuel W. Lewis. ‘‘Nós vimos sua absoluta dedicação à força para solucionar problemas.’’
Como os EUA reagirão, perguntam eles, quando os conflitos entre israelenses e palestinos recomeçarem, como parece fadado a acontecer. ‘‘Sharon precisa manter o apoio de sua base e isso significa fazer algumas ações atrevidas’’, disse Edward G. Abington, um consultor da Autoridade Palestina que já foi cônsul-geral dos EUA em Jerusalém. ‘‘Se ele cair com força em cima dos palestinos, a administração Bush vai se ver numa situação difícil muito rapidamente, porque não haverá nenhum comedimento dos árabes na política do preço do petróleo.’’
Para Shibley Telhami, da Universidade de Maryland, a continuação da violência em Israel, sob Sharon, ‘‘terá ramificações para a política dos EUA no mundo árabe no momento em que a administração Bush está tentando ganhar apoio para apertar o cerco contra Saddam Hussein, no Iraque’’. Segundo ele, ‘‘antes do que espera, Bush terá que mandar um enviado especial para falar com os israelenses e os palestinos’’.
Por ora, a disposição americana é a de trabalhar os canais diplomáticos tradicionais e esperar que a situação permanecerá sob algum controle pelo menos enquanto Powell monta sua equipe e desenvolve sua própria perspectiva sobre o estado da crise permanente entre israelense e palestinos. ‘‘Nós queremos trabalhar com os nossos amigos na Nações Unidas e em outros lugares para persuadir todas as partes do conflito durante este período pós-eleitoral ultradelicado a não fazer nada e os líderes da região a fazer para assegurar que a violência não comece a crescer.’’
A preocupação imediata de Washington é com a amplitude política do governo que Sharon formará. O novo-primeiro ministro convidou o Partido Trabalhista de Ehud Barak a ocupar três postos-chave no gabinete Finanças, Relações Exteriores e Defesa. Esta é alternativa que mais agrada Washington, pois ajudaria, em princípio, a moderar o governo de Sharon e a manter abertos os canais de comunicação com Arafat.
Mas a fragorosa derrota nas urnas de terça-feira passada abriu uma profunda crise interna no partido e a oferta de Sharon contribuiu para aumentar a divisão entre dois grupos: os que acham que a participação no governo ajudará a salvar o processo de paz iniciado pelos Acordos de Oslo, em 1993 e os que apostam numa estratégia de oposição aberta ao novo primeiro-ministro, com o objetivo de abreviar ao máximo o tempo de sua permanência no poder.
Independentemente da composição do novo gabinete, o primeiro teste para Sharon acontecerá já no mês que vem, quando ele precisará garantir o apoio de uma maioria parlamentar para o orçamento de seu governo ou enfrentar uma nova eleição.

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