EUA esperam subprodutos do escândalo
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de fevereiro de 1999
Paulo Sotero Agência Estado 
E agora, a parte pior. Nas próximas semanas, meses e anos, os americanos serão bombardeados pelos subprodutos do escândalo que levou ao segundo julgamento de impeachment de um presidente dos Estados Unidos. O presidente Bill Clinton foi absolvido e completará seu mandato. Mas, sem contar o mal que o episódio causou ao país, há reputações a consertar, milhões de dólares em contas de advogados a pagar e, para alguns, quem sabe a oportunidade de transformar a má fama e a notoriedade numa carreira lucrativa no mercado das celebridades.
A solução, para a maioria dos personagens e figurantes da tragicomédia político-sexual encerrada na semana passada, é contar a história outra vez.
A dúvida é se haverá alguém disposto a ouvir. Os americanos certamente prefeririam ser poupados da revelação de novos detalhes, pelo menos até digerirem o que já lhes foi servido. Mesmo em Washington, uma cidade com um apetite insaciável para a intriga, respirava-se alívio na tarde da sexta-feira, depois que os senadores votaram a absolvição, confirmando-se o que todos já sabiam.
Monica Lewinsky, a jovem que alterou o curso da história do mais poderoso país do planeta voluntariando seus serviços sexuais ao presidente dos Estados Unidos, já tem dois contratos para entrevistas na televisão e um livro em preparação.
Linda Tripp, sua suposta amiga e confidente, que gravou as conversas telefônicas nas quais Monica contou seus encontros sexuais com Clinton e passou a informação à Justiça, já começou uma ofensiva de relações públicas para mudar sua merecida imagem de rainha da traição e do mau caratismo.
Talvez o que elas tenham a dizer não seja suficiente para alimentar os 12 programas de entrevistas, em emissoras de televisão a cabo, que nasceram com o escândalo e ajudaram a amplificá-lo.
Alguns já começaram a apostar nas questões do pós-impeachment. Mas nelas talvez residam as piores consequências do escândalo.
Nos seus discursos, Clinton e seus adversários prometeram na sexta-feira dedicar-se aos assuntos de interesse coletivo que foram eleitos para tratar. É difícil ver, no entanto, como eles negociarão os compromissos políticos necessários para aprovar, por exemplo, leis de reforma da previdência social e do seguro médico federal e outras propostas que estão sobre a mesa.
Os dois últimos anos de um presidente que fica na Casa Branca por dois mandatos são geralmente os menos produtivos, observou Norman Orstein, um especialista em Congresso do American Enterprise Institute. Quando você tem um presidente enfraquecido por um processo de impeachment, de um lado, e 50 senadores que o consideram desqualificado para continuar na presidência, de outro, não sobra muito espaço para cooperação.
Internamente divididos, psicologicamente abalados e com sua imagem pública desgastada pelo fiasco político que foi o impeachment de Clinton, os republicanos têm uma forte razão adicional para não cooperar com a Casa Branca: eles sabem que qualquer acordo beneficiará mais o presidente e seu partido e fortalecerá a posição já confortável em que os democratas partem para as eleições presidenciais e legislativas de novembro do ano 2000.
Claros perdedores na confrontação com a Casa Branca, os conservadores enfrentarão de agora em diante um adversário que mostrou uma capacidade surpreendente de coesão num momento de crise e é motivado pela perspectiva bastante realista de manter a Casa Branca nas mãos de um democrata e reconquistar o controle do Congresso, perdido em 1994.


