EUA e a Rússia não chegam a acordo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de abril de 1999
Reuters 
Os Estados Unidos e a Rússia anunciaram ontem ter se aproximado em algumas questões, mas não conseguiram concordar sobre como terminar os combates em Kosovo, onde soldados sérvios cruzaram a fronteira e lançaram um assalto dentro da Albânia.
A secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, e o ministro do Exterior russo, Igor Ivanov, não conseguiram fechar o fosso diplomático aberto pela campanha aérea de três semanas da Otan, durante encontro em Oslo, Noruega, mas prometeram continuar buscando conjuntamente uma solução política para a crise nos Bálcãs.
France PresseEscudos humanosDezenas de civis se concentram em uma ponte em Belgrado para impedir sua destruição pelos aviões da OtanNotícias, negadas por Belgrado, sobre uma breve ocupação por parte dos sérvios de uma remota vila no norte da Albânia obscureceram a conversação. Albright advertiu o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic que haverá sérias consequências caso ele amplie o conflito.
O comandante-supremo da Otan, o general norte-americano Wesley Clark, pediu desculpas por um míssil ter atingido na segunda-feira um trem de passageiros na Sérvia, um ataque que segundo autoridades iugoslavas matou 10 civis. Ele disse que tratou-se de um acidente misterioso e afirmou que todos nós sentimos muito por isso.
Clark disse a repórteres que a Otan estava ganhando a guerra contra as forças iugoslavas com seus bombardeios aéreos, mas admitiu que as defesas aéreas sérvias são ainda operacionais e afirmou que havia pedido ao Pentágono o envio de mais 300 aviões de combate.
France PresseNegociaçõesA secretária de Estado Madeleine Albright e o ministro russo Igor Ivanov em Oslo: fosso diplomáticoNa Albânia, testemunhas relataram que havia sido bombardeado o distrito nortista de Tropoje, cenário de fortes combates entre o Exército de Libertação do Kosovo (ELK) e forças iugoslavas. Os sérvios cruzaram para a Albânia, afirmou o oficial de campo Pier Gonggrip, do grupo de monitoração internacional da OSCE.
Albright disse numa entrevista coletiva que Washington estava checando as notícias da incursão sérvia, a primeira desde que a Otan começou a atacar forças sérvias numa tentativa de fazer com que elas parem de expulsar a população majoritariamente albanesa de Kosovo.
Temos dito claramente que condenamos os esforços sérvios para tentar ampliar este conflito e a Otan tem deixado bem claro que irá considerar com a máxima seriedade qualquer tentativa dos sérvios de agir além de suas fronteiras, afirmou Albright.
A televisão albanesa divulgou mais tarde que os sérvios haviam se retirado da vila de Kamenica depois de trocarem fogo pesado com guardas fronteiriços da Albânia.
O presidente albanês, Rexhep Meidani, disse que seu país não seria arrastado para um conflito armado com a Iugoslávia. Vamos resistir a esses insultos para que a natureza deste conflito não seja alterada, afirmou ele à rádio francesa RFI.
A moeda comum da União Européia (UE), o euro, desvalorizou meio centavo frente ao dólar com as notícias da incursão, mas recuperou-se com informações de que os sérvios haviam se retirado.
O encontro de Albright com Ivanov foi o primeiro contato de alto nível entre as duas nações desde que teve início a campanha da Otan.
Ivanov disse que continuava inalterada a oposição de Moscou aos bombardeios da Otan, mas que os dois lados haviam concordado em manter contatos em busca de uma solução política.
Ivanov, que evitou usar recentes condenações aos bombardeios da Otan que fizeram lembrar o amargo estilo da Guerra Fria, afirmou que ele e Albright haviam feito algum progresso.
Demos um passo à frente, talvez não tão grande quanto esperávamos, mas de qualquer forma um passo a frente, disse ele a repórteres.
Ivanov afirmou que uma das questões mais polêmicas foi a criação de uma força internacional de paz para Kosovo, mesmo tendo ele e Albright concordado sobre a necessidade da volta dos refugiados.
Albright insistiu que a Otan deve formar o núcleo de qualquer força de paz em Kosovo, de onde 456 mil albaneses étnicos fugiram ou foram expulsos pelas forças de Milosevic desde o início da ação militar da Otan.
Apesar de líderes da Otan virem repetidamente dizendo que não têm planos de entrar com soldados em Kosovo, o presidente americano Bill Clinton afirmou a líderes do Congresso que não está descartado o uso de tropas terrestres no conflito, informou um senador que participou da reunião.
Num novo sinal do reforço da Otan nos Bálcãs, a Grã-Bretanha anunciou que estava enviando mais 1.800 soldados para a Macedônia e Grécia para ajudar no eventual retorno de refugiados para Kosovo, fazendo com que subisse para 6.300 o número de militares britânicos na região.
Sublinhando os custos cada vez mais elevados dos intensos ataques da Otan, o Departamento de Defesa dos EUA informou que iria pedir autorização do Congresso para o uso de US$ 4 bilhões em fundos de emergência para a campanha.
Mais de 3 mil kosovares chegaram à Albânia ontem, segundo monitores internacionais. Centenas também cruzaram para a Macedônia, o maior grupo a entrar no país desde que a Iugoslávia fechou suas fronteiras na semana passada.
O secretário do Exterior britânico, Robin Cook, disse que ele tinha evidências de que mulheres albanesas étnicas foram sistematicamente estupradas numa base do exército iugoslavo de Djakovica, no sul de Kosovo.
Ele afirmou que nos ataques da madrugada desta terça-feira a Otan usou três vezes mais aviões do que em bombardeios anteriores.
A Otan informou que havia atacado esta madrugada duas grandes refinarias na Sérvia e vários alvos nas proximidades da capital kosovar de Pristina.
A agência de notícias iugoslava Tanjug divulgou que haviam sido atingidos um hospital militar de Belgrado e um hotel numa estação de esqui no centro da Sérvia.
Um ministro russo disse que a campanha aérea já matou mais de 400 civis na Iugoslávia. Esta crise não pode ser resolvida pelas bombas, que apenas agravam a crise, afirmou o primeiro-vice-ministro do Exterior Alexander Avdeyev à rádio francesa RTL.


