EUA: como punir meninos de Jonesboro?
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quinta-feira, 26 de março de 1998
Paulo Sotero Agência Estado 
A secretária da Justiça dos Estados Unidos, Janet Reno, disse ontem que está examinando a possibilidade de invocar violação a leis federais sobre posse e uso de armas para indiciar como adultos Mitchtell Johnson, de 13 anos, e Andrew Golden, de 11, os meninos que mataram a tiros quatro colegas e uma professora e feriram nove outros alunos de sua escola, em Jonesboro, Arkansas, na segunda-feira. O envolvimento do governo federal na tragédia foi provocado pela reação da população da cidade e dos políticos de Arkansas a uma lei do Estado que proibe que pessoas de menos de 14 anos sejam julgados como adultos. Ontem, o governador de Arkansas, Mike Huckabee, e vários deputados estaduais defenderam a mudança da lei, sob a pressão da mistura de choque, pavor e revolta provocada pela carnificina por dois meninos normais e de boas famílias.
Amy Rossi, diretora da organização Defensores das Crianças e da Família, de Arkansas, aconselhou o governador e as autoridades em Washington a agir com calma. As pessoas estão respondendo ao pesar e à raiva do momento, afirmou ela. Eu não consigo imaginar o horror que os pais das crianças e a comunidade está vivendo, mas nós não devemos tomar decisões de políticas públicas com base nesse tipo de reação, por um único fato, por horripilante que ele seja.
Em Washington, a diretora para assuntos legislativo da Coalização Contra a Violência das Armas, Robin Katcher, disse estar perplexa com as respostas das autoridades federais e estaduais à tragédia. Parte da explicação está obviamente na ampla disponibilidade de armas de fogo na casa das pessoas neste país, na cultura de violência da nossa sociedade, mas esse é um aspecto que, até o momento, não entrou na discussão, disse ela. Recebi dezenas de telefonemas de jornalistas estrangeiros nos últimos dois dias, mas nenhum de jornalistas americanos. Estou perplexa.
A reação imediata das pessoas é perguntar-se o que há de errado com os dois meninos, com seus pais e suas famílias, sem fazer a conexão entre o evento e o que está acontecendo na sociedade, afirmou Robin Katcher. Como não há nada de especialmente errado com eles, chega-se à conclusão de que se trata de um fato inexplicável e passa-se a discutir como castigá-los, ou seja, em como separar os dois meninos da sociedade em vez de discutir como separar as crianças e as sociedade das armas, disse. Se eles tivessem acesso apenas a um estilingue ou a uma espingarda de chumbo, não poderiam ter feito o dano que fizeram, mas, para minha perplexidade, essa parte da discussão ainda não começou.
De acordo com um estudo recente do departamento de Justiça, uma em cada três casas tem armas de fogo, nos EUA. O arsenal nas mãos de particulares ultrapassa os 200 milhões, o que significa, na prática, que qualquer pessoa que deseja possuir ou usar uma arma pode fazê-lo, até mesmo crianças.


