Etiópia é devastada pela seca e guerra
Gilles Lapouge
Associated Press
De Paris
O menino alucinado, de olhos perdidos e rosto curvado sobre o peito, de perninhas descarnadas, é uma imagem que a parte pobre do planeta nos apresenta de tempos em tempos, com muita frequência infelizmente, ao ritmo das fomes que rodeiam a Terra (em suas regiões centrais, nas estepes e nos desertos). Hoje, é um garotinho ou uma menininha etíope que nos comove (como nos anos de 1984 e 1985, na mesma Etiópia, que viu morrer de fome um milhão de pessoas).
Segundo as Nações Unidas, 16 milhões de pessoas estão ameaçadas em dez países da África central e do leste, do Burundi à Eritréia. Outras fontes, porém, são mais moderadas e dizem que não se pode falar em fome. Nem por isso as crianças deixam de morrer às centenas no sudeste do país, no deserto de Ogaden. Em certas aldeias da região, a taxa de mortalidade infantil é de dez ao dia.
Todavia, parece que não se trata de fome, e sim de má nutrição, ou de uma pré-fome. Um menino que morre porque sua mãe, assim como as camelas de Ogaden, não tem mais leite, não quer saber se está gemendo de fome ou de pré-fome.
Segundo informações, o número de pessoas deslocadas no norte da Etiópia (que também sofre, porém em menor grau do que em Ogaden) é de 340 mil. O que não é verdade. Esse número teria de ser dividido por cinco. No sul, o governo etíope afirma que a alimentação de 300 mil pessoas depende da ajuda internacional. A Cruz Vermelha (cujo trabalho é esplêndido) reduz esse número para 180 mil.
Não se deve inferir disso que o perigo seja imaginário, que a Etiópia tenha se livrado da epidemia de fome. Os mais rigorosos especialistas prevêem que um milhão e meio de pessoas em Ogaden serão atingidas pela fome daqui a um mês. E se não chover, o que praticamente não acontece há três anos, a tragédia poderá se alastrar por outros países, inclusive o Quênia.
Isto significa que a desgraça apenas começou, e como o alerta já foi dado há 15 dias, pode-se afirmar que esse drama é diferente de muitos outros, já que foi anunciado e previsto antes mesmo de acontecer. É lamentável que essa mobilização seja tão prematura. Ninguém dá muita importância a ela porque o socorro sempre demora muito a aparecer.
A população se lembra o quanto a seca anterior, de 1985, se alastrou antes de comover a comunidade internacional. Por isso, desta vez, resolveram se antecipar. E, infelizmente, suas previsões que pareciam um tanto sombrias há 15 dias, hoje se mostram cruelmente corretas.
A Etiópia está em guerra com seu vizinho do norte, a Eritréia (antiga província etíope até 1993), um pequeno país de 3 milhões de habitantes, contra os quase 40 milhões da Etiópia. A Eritréia tem o privilégio de possuir dois portos no Mar Vermelho, Assab e Massawa, ao passo que a Etiópia não tem saída para o mar. Portanto, o socorro de maior peso teria de vir através dos portos da Eritréia, mas os dois países se odeiam, e a Etiópia não concorda que os portos do país vizinho sejam utilizados para envio de socorro.
É evidente que a guerra agravou os efeitos da seca. Se o dinheiro não fosse destinado ao exército e às máquinas de guerra; se os soldados etíopes pudessem auxiliar as populações isoladas do deserto ou dos altos platôs, a catástrofe seria de menores proporções.
A comunidade internacional, cansada dessa guerra de mendigos (a Etiópia é um dos países mais pobres do mundo), há muito tempo deixou de ajudar os etíopes; por um lado, ela o fez para puni-los, e por outro, para impor-lhes um tipo de chantagem humanitária, condicionando a ajuda ao fim das hostilidades. A guerra não acabou, e as crianças começaram a morrer.
Foi preciso então que ocorressem essas primeiras mortes para que os países ricos admitissem que a Etiópia devia ser socorrida. A movimentação, porém, é lenta. Há poucos dias, apenas a Cruz Vermelha Internacional tinha se mobilizado. Desde então, algumas ONGs começaram a se mexer. Há, contudo, uma questão que preocupa os países dispostos a ajudar: será que os recursos serão realmente enviados aos moribundos de Ogaden e, amanhã, àqueles outros que vão surgir na região árida dos altos platôs (ao norte da capital, Adis Abeba), ou será que parte desses recursos não corre o risco de ser desviado para o front? A isso respondem as autoridades etíopes: Se existe aí alguma insinuação de que o governo deva pôr fim à guerra por causa da seca que aflige o país, é puro engano achar que isso vá acontecer. Não queríamos a guerra, e nem a seca.
Que dizer das técnicas que permitem prever as grandes secas? A Europa possui, desde 1998, um instrumento, o Vegetação, a bordo do satélite Spot IV, que fornece a cada dez dias, praticamente por quilômetro quadrado, a situação da vegetação e da umidade. Pode-se, portanto, prever com meses de antecedência como será a colheita. Infelizmente, o sistema é novo. Falta-lhe um histórico maior para que se possa interpretar os dados colhidos em 1999.
Um jornalista do Libération comenta uma charge publicada por um jornal etíope em que aparecem uma mãe e seu filho já no fim de suas forças. Ao redor deles, uma porção de fotógrafos se acotovelam para clicar aquele clichê da mater dolorosa. O menino pergunta então à mãe: Isso é pão? A mãe responde: Não. Esses são os padeiros.





