Estudantes pressionam o regime no Irã
Associated Press
De Teerã
A polícia e vigilantes islâmicos reprimiram ontem com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo milhares de estudantes que, ignorando apelos do presidente moderado Mohammad Khatami, voltaram às ruas de Teerã para exigir a renúncia do aiatolá ditador Ali Khamenei e de radicais do governo.
Segundo testemunhas, mais de 50 manifestantes - incluindo 20 mulheres - ficaram feridos ou intoxicados no quinto dia dos piores protestos desde a Revolução Islâmica, em 1979 - iniciados quinta-feira contra o fechamento de um jornal moderado e ampliados após a sangrenta invasão policial do câmpus da Universidade de Teerã, na noite da mesma quinta-feira, que deixou pelo menos um morto (talvez cinco, conforme a versão estudantil) e vários feridos.
A agência oficial Irna informou que ontem também ocorreram protestos em Tabriz, Azerbaiyan, Yazd, Lorestã, Hamedan, Sharud, Sistan Baluchestan, Kerman, Hormozgan, Rafsanian, Kermanshad e Qazvin. O governo de Tabriz acusou estudantes pró-democracia de ter matado um seminarista muçulmano e ferido vários outros a tiros no domingo, durante distúrbios na universidade local. A acusação não pôde ser imediatamente confirmada.
A repressão em Teerã começou na Praça Vali Asr, a alguns quilômetros da universidade. No confronto, vários manifestantes ficaram feridos e janelas de lojas foram quebradas, disseram testemunhas. Estudantes feridos receberam ajuda da equipe de um caminhão de transfusão de sangue parado na praça. Os manifestantes fugiram então de volta para a universidade, onde se barricaram com milhares de colegas que já estavam lá protestando e queimaram pneus nos portões.
Ao todo, 10 mil jovens concentraram-se no câmpus. Tentanto impor o controle em torno da universidade, a polícia e militantes do grupo radical Ansar-e Hezbollah também reprimiram estudantes nas ruas da área. Os militantes chegaram a tentar invadir o principal complexo de dormitórios estudantis, mas foram rechaçados. Mais tarde, a polícia deu garantias de segurança aos universitários e estes esvaziaram quase totalmente o câmpus. O governo de Teerã advertiu que também não autorizará nenhuma manifestação hoje.
Os universitários exigiram a criação de um dia de luto nacional em honra a seus colegas mortos na invasão do dormitório do câmpus, a entrega dos corpos, a destituição do chefe de polícia da capital, Hedayat Lotfian, e o julgamento aberto dele e dos outros oficiais que ordenaram o assalto. Eles também querem a libertação do grão-aiatolá Hossein Ali Montazeri, o principal dissidente clerical iraniano, que é mantido em prisão domiciliar e qualificou ontem de traidores do regime aqueles que invadiram a universidade e atacaram os estudantes.
O próprio aiatolá Khamenei condenou ontem o ataque aos universitários. Esse amargo incidente fere meu coração e é inaceitável na rapública islâmica, afirmou. Mas Khamenei alertou contra inimigos que estariam infiltrados nas fileiras estudantis e acusou os EUA de gastar dinheiro para tentar desestabilizar o Irã.
No entanto, uma tentativa de ler o comunicado de Khamenei para os manifestantes dentro do câmpus foi impedida aos gritos pela multidão. Abaixo o ditador!, gritavam os jovens. Renuncie, comandante-chefe!





