“Um professor para 35 alunos. Cinco policiais de choque para um aluno”. Por toda a França, jovens levantam cartazes com os dizeres nas ruas e bloqueiam as entradas de suas escolas desde meados de setembro, protestando contra a falta de professores, a carga horária excessiva e a infraestrutura em mau estado. Milhares de novos adeptos se juntaram ao movimento, indignados com a alta no custo de vida e a deterioração do poder de compra e dos serviços públicos. A seis meses da eleição presidencial, as marchas envolvem saques, confrontos e denúncias de violência policial. No “país da revolução”, uma londrinense apoia os atos e o direito de se mobilizar, ensinando o “panelaço” aos seus vizinhos e marchando pacificamente.


Os protestos começaram no dia 17 de setembro, quando alunos e docentes de uma escola de ensino médio em Créteil, na periferia de Paris, entraram em greve. O movimento se espalhou para outras instituições que também demandam mais recursos e professores, desencadeando a adesão nacional.

Agatha Mangoni cursa mestrado em política internacional na Sciences Po Bordeaux, em dupla diplomação com a Universidade de Coimbra, em Portugal. A londrinense se mudou para a França aos 14 anos junto da família, visto que o pai é francês e suas irmãs mais velhas já estudavam no país.

Por conta do mestrado em política internacional, Agatha Mangoni vive entre a França e Portugal
Por conta do mestrado em política internacional, Agatha Mangoni vive entre a França e Portugal | Foto: Arquivo pessoal

Seus colegas aderiram à mobilização e colocaram barricaradas nas portas da faculdade, com as aulas seguindo on-line. Assembleias gerais são promovidas ao longo do dia, com participação de qualquer interessado e votações pela continuidade da concentração.

A mestranda de 21 anos destaca que o movimento partiu de adolescentes, já com consciência política. “Eu me solidarizo com o resto dos jovens franceses. Os relatos são extremamente chocantes, de falta de professores, de salas superlotadas, de infraestruturas com ratos e sem água potável. Óbvio que não é em todos os lugares, o sistema educacional na França é muito bom, mas também tem muitas coisas a melhorar. Alguns lugares são mais valorizados e outros acabam negligenciados”, lamentou Mangoni.

Cartaz que Mangoni pendurou no dia 17 de outubro faz trocadilho com o lema nacional da França, 'Liberdade, Igualdade, Fraternidade', substituindo o último termo por 'mais dinheiro para as escolas'
Cartaz que Mangoni pendurou no dia 17 de outubro faz trocadilho com o lema nacional da França, 'Liberdade, Igualdade, Fraternidade', substituindo o último termo por 'mais dinheiro para as escolas' | Foto: Arquivo pessoal

‘Somos todos antifascistas’

A mobilização ganhou força com o apoio de adultos insatisfeitos com a perda do poder de compra e da queda de qualidade dos serviços públicos. Na França há oito anos, tanto Mangoni quanto seus familiares percebem a crescente inflação, com aumento no custo de vida. Com a realização do mestrado duplo em Portugal, a jovem troca de residência anualmente, de Bordeaux a Coimbra. “Eu observei um aumento no preço do aluguel a cada vez que eu voltava para Bordeaux. A assistência social na França é excelente, mas as ajudas estão sendo encurtadas cada vez mais”, completou.

A londrinense participou de duas manifestações até o momento. A primeira, em 13 de outubro, teve cenário pacífico e alunos de ensino médio acompanhados por pais, avós, crianças e simpatizantes da causa estudantil. Os franceses entoaram um canto italiano, “somos todos antifascistas”, e um comum em atos estadunidenses contra a violência policial, “ACAB (All Cops Are Bastards, traduzido do inglês para Todos os Policiais são Bastardos)”.

Na segunda vez, no dia 17, introduziu o tradicional “panelaço” brasileiro aos seus amigos e vizinhos, na sacada do apartamento onde estava, com uma passeata ocorrendo na rua. Nesta mesma data, uma onda de violência tomou conta da França, com danos causados por violentos distúrbios e saques em larga escala resultando em pelo menos 1.800 detenções. Somente em Paris, foram 855 presos, com ruas cheias de restos carbonizados de barricadas erguidas pelos manifestantes com bicicletas, lixeiras e outros materiais. Vitrines foram destruídas e carros, incendiados.

Imagem ilustrativa da imagem Estudante de Londrina ensina ‘panelaço’ em protestos na França
| Foto: Agatha Mangoni

Na capital e em várias cidades, como Bordeaux, Marselha, Nice e Estrasburgo, 3 mil estabelecimentos comerciais foram saqueados por jovens mascarados, segundo a Federação de Comércio e Distribuição. Autoridades e a principal central sindical francesa, a CGT(Confederação Geral do Trabalho) contabilizaram, respectivamente, 550 mil e 800 mil participantes.

Viés político

Mangoni contou que a polícia fez uso de bombas de gás lacrimogêneo em Bordeaux ainda no ponto de partida da concentração, antes mesmo de a passeata começar. “Acho muito difícil esperar uma manifestação pacífica se do lado policial não há uma resposta pacífica. Nesse caso, não era nenhuma resposta, partiu deles. As pessoas não conseguiram ficar naquele lugar, não seguiram o percurso previsto e autorizado pela prefeitura”. Completou dizendo não acreditar que os manifestantes são as mesmas pessoas promovendo depredação.

As autoridades apontaram a "extrema-esquerda" como responsável por um plano "insurrecional" no dia 17, classificando o ocorrido na segunda maior economia da União Europeia como um dos piores episódios de violência dos últimos anos.

Os distúrbios ocorrem a seis meses das eleições presidenciais de 2027, com o centrista Emmanuel Macron fora da disputa devido ao limite de mandatos. A ultradireitista Marine Le Pen lidera as pesquisas. Seu partido, RN (Reagrupamento Nacional), é beneficiado pela fragmentação do centro, além das dificuldades dos partidos tradicionais. O principal adversário é o líder do partido de esquerda radical A França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon.

O poder de compra é uma das preocupações centrais dos franceses, especialmente após a alta nos preços dos combustíveis desde o início do conflito no Oriente Médio.

‘País da revolução’

O Senado francês aprovou, na quarta-feira (28), o projeto de lei traduzido como "quebrou, pagou". Foi criado para responsabilizar financeiramente, em até 10 mil euros por pessoa (cerca de R$ 60 mil), participantes de manifestações que terminem em atos de vandalismo. O projeto segue para a Assembleia Nacional.

Imagem ilustrativa da imagem Estudante de Londrina ensina ‘panelaço’ em protestos na França
| Foto: Arquivo pessoal

Novos protestos estão marcados para sábado (31), com uma greve geral convocada para 5 de novembro pelos principais sindicatos da França. Mangoni acredita que o ato vai coroar o movimento que vem aumentando progressivamente, visto que no país “realmente param tudo”.

“Eles não se manifestam só quando acontece algo extremamente grande, se manifestam quando acontece qualquer coisa que eles acreditam que vai contra o povo. A repressão tem sido grande, essa liberdade para manifestar está um pouco mais limitada, mas está enraizada na cultura francesa. Como brasileira, penso ‘caramba, estou aprendendo com isso’. Eu tenho direito de sair na rua e pedir, e traz resultados”, opinou a londrinense. (Com France Presse)

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