Estados Unidos dominam ação militar
Gilles Lapouge Agência Estado
Os Estados Unidos dominaram claramente toda a ação militar da Aliança Atlântica em Kosovo. Em contrapartida, a etapa diplomática foi administrada mais pelos europeus e os russos. Cumpre lembrar que, no conflito precedente, o da Bósnia, os Estados Unidos impuseram às conversações de Dayton a sua solução e os europeus estiveram ausentes.
Neste ano, no caso de Kosovo, a Europa realizou melhores gestões, introduzindo simplesmente no jogo este trunfo esssencial, que é a Rússia. O presidente francês Jacques Chirac, foi o primeiro que, inteligentemente, exigiu a presença russa.
E, de fato, depois de um primeiro e decepcionante contato dos russos com Slobodan Milosevic, a máquina diplomática do Kremlin funcionou muito bem, sob a direção do ex-primeiro-ministro Chernomyrdin. Isso significa que a guerra de Kosovo permitiu que a Rússia recuperasse, no xadrez internacional, um peso que havia perdido desde o fim da ordem comunista?
Certamente, aí está a prova de que, apesar da lamentável debilidade da Rússia, é perigoso ignorar Moscou quando ocorre um problema grave na Europa, sobretudo na Europa Central ou Oriental.
É preciso porém analisar este sucesso em seus matizes. A opinião russa está longe de alegrar-se unanimemente com a solução elaborada entre Belgrado, a Otan e Moscou.
Os primeiros a se oporem ao acordo são os militares russos. Até mesmo o general Leonid Ivachov, que acompanhou Chernomyrdin em sua missão em Belgrado, expressou sua amargura: Não estamos satisfeitos com numerosos pontos deste acordo. Muitas coisas dependerão da boa vontade da Otan.
A reação é lógica: os oficiais militares russos estão humilhados com a impotência total de seu Exército e sentem um medo patológico da Otan, nascida na época da União Soviética.
O ressentimento do Exército russo é assumido por uma parte da sociedade civil. Há alguns dias, o Conselho de Política Exterior e de Defesa exigiu que a Rússia impusesse condições de paz, ou então renuncie a seu papel de mediadora. Evidentemente, esta súplica não foi atendida.
No âmbito político, as críticas são também numerosas e emanam de duas alas extremas, direita e esquerda, que frequentemente se associam naquilo que em Moscou se chama de maioria comuno-nacionalista.
O líder do Partido Agrário, (extrema direita), Nikolai Karitonov, acusou Chernomyrdin de ter aceito uma pequena Munique ao apoiar os interesses da Otan. Fazendo eco a esta opinião, o líder comunista Gennady Zyuganov classificou Chernomyrdin de traidor social, que vendeu nossos interesses nos Bálcãs.
Estes rancores, estes protestos não deverão modificar a linha de Boris Yeltsin. Há pouco, a Duma - câmara baixa do parlamento - foi incapaz de derrubar Yeltsin quando este, por um novo capricho de czar, substituiu o excelente primeiro-ministro Primakov pelo desbotado Serguei Stepashin.
A classe política ainda está sob o impacto desta derrota e não se sente em condições de lançar uma nova ofensiva contra Yeltsin.
Em contrapartida, podemos prever que os russos irão multiplicar as exigências na aplicação do acordo de Belgrado: presença do contingente russo em Kosovo (10.000 homens) sob comando russo; coordenação deste contingente com a OTAN.
Tudo faz crer que as tensões, talvez os incidentes, não faltarão no decorrer desta saída de incêndio da guerra.





