Paris - Uma semana depois do voto de castigo infringido à direita francesa no poder, a esquerda, unida e revitalizada após sua derrota nas eleições de 2002, já saboreia sua vitória no segundo turno das eleições regionais, uma ressurreição empanada entretanto pelo avanço da ultradireita.
As votações de hoje serão uma prova crucial para o governo do presidente Jacques Chirac e um sinal inequívoco da atitude da população para suas reformas sociais, muitas delas polêmicas.
Em 21 de março, esta direita tradicional e moderada sofreu um revés, uma inesperada ''bofetada'', interpretada como um voto de punição para o premier Jean-Pierre Raffarin, após dois anos de governo.
Alguns analistas apresentam o popular ministro do Interior, jovem, ambicioso e homem de mídia, Nicolas Sarkozy como o sucessor de Raffarin, cuja popularidade afundou. Sarkozy, que não esconde sua intenção de candidatar-se à presidência em 2007, tem estado presente ostensivamente desde os primeiros dias da campanha.
Embora estas eleições regionais não influam na composição do Parlamento, levarão indiretamente a mudanças no governo. No primeiro turno, onde a abstenção foi de 40%, a maioria do governo obteve 34% de votos, seis pontos atrás da esquerda (socialistas, comunistas e ecologistas), que conseguiu 40%.
O partido de ultradireita de Jean-Marie Le Pen, a Frente Nacional (FN), conseguiu 16% dos votos, convertendo-se na terceira força política na França.
No total, este partido participará no segundo turno em 17 regiões francesas onde os cidadãos deverão eleger entre vários candidatos de direita (radical ou moderada) e um de esquerda, o que indiretamente favorecerá a esquerda.
As últimas pesquisas fazem prever que a tendência do primeiro turno será mantida e os franceses vão preferir uma esquerda revitalizada e unida a uma direita dividida entre UMP (União por um Movimento Democrático), principal instrumento político de Chirac, e os centristas da UDF (União pela Democracia Francesa) de François Bayrou.
Segundos os últimos dados, a esquerda dispõe de 46% das intenções de voto frente aos 36 ou 38% da direita e aos 16 ou 18% da Frente Nacional.
Alguns analistas franceses assinalaram inclusive que a vitória da esquerda na França se deve ao ''efeito Zapatero'', em alusão à vitória do partido socialista espanhol liderado por José Luis Rodríguez Zapatero nas eleições legislativas de 14 de março passado.
''Neste domingo se apresenta a chance de se criar um contrapeso ao poder central monocolorido graças a assembléias locais nas quais há uma diversidade de opinião que se viu afogada nas eleições de 2002'', afirmou o jornal Libération em seu editorial de sexta-feira.
Em linhas gerais, a direita, que apesar do estrondoso fracasso no primeiro turno não conseguiu se unificar, perderia cinco ou seis regiões das 14 que possuía desde 1998 e a esquerda, que encabeça atualmente oito, pode ser a maioria em 22 regiões metropolitanas, entre elas Ile de France, que tem por capital Paris.
O aumento do desemprego em 2003, a reforma do sistema de aposentadorias somada à ampliação do horário de trabalho e aos cortes orçamentários na pesquisa e na saúde são fatores que pesam contra o governo nestas eleições.

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