Espionagem americana irrita a UE
Reali Júnior
Agência Estado
De Paris
O relatório que examina a extensão da espionagem industrial e comercial norte-americana sobre seus aliados da União Européia (UE) a chamada rede Echelon confirma que, graças a esse sofisticado sistema de captação de informações, empresas dos Estados Unidos obtiveram dois supercontratos que disputavam com grupos franceses.
A questão está sendo investigada pelos deputados no Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
Um desses contratos foi o do Sivam, o sistema de proteção aérea da Amazônia. Seu valor é de US$ 1,5 bilhão e houve tanta polêmica no Brasil que a empresa Raytheon acabou favorecida na disputa com a francesa Thomson.
O outro foi o supercontrato de vendas de aviões para a Arábia Saudita, penalizando o consórcio europeu Airbus. Esse sistema contribuiu também para reforçar a posição norte-americana nas recentes reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Antes da Europa, a Grã-Bretanha tem um grande aliado, os Estados Unidos. Ontem, no Parlamento Europeu, constatava-se uma grande irritação dos países da UE, inconformados com o relatório das atividades da rede de espionagem industrial, do qual participam também Canadá, Austrália e Nova Zelândia. O documento foi preparado a pedido da comissão de liberdades e dos direitos dos cidadãos do Parlamento.
O que mais choca os europeus não é o fato de os EUA utilizarem seus sofisticados instrumentos de espionagem para favorecer seu comércio exterior, mas a participação da Grã-Bretanha, membro da UE e que desempenha um papel central nesse sistema.
O envolvimento britânico, aproveitando suas relações privilegiadas com Washington para espionar seus parceiros europeus, está sendo fortemente criticado nos bastidores pelos deputados de diversos países da UE.
Dois bilhões de comunicações triadas e tratadas diariamente. Trata-se de um pacto de informação, dirigido pela Agência de Segurança Nacional (NSA, pela sigla em inglês) e que utiliza 120 satélites que captam e analisam conversas, fax, e-mails em todo o mundo, podendo tratar, diariamente, dois bilhões de comunicações, triando-as por intermédio de um sistema de inteligência artificial.
Inicialmente concebido para espionar o bloco de países do leste europeu, depois de 1989 a rede Echelon foi dirigida para os países da UE, onde se encontram seus principais concorrentes comerciais.
As mensagens transmitidas por Internet, telefone, fax e telex são interceptadas e tratadas pela NSA antes de serem transmitidas ao governo norte-americano, que deverá transmiti-las aos serviços especiais e às empresas que podem se interessar.
A França não é inocente em matéria de espionagem industrial. Ela também dispõe de um sistema, o GCR, grupo de controles radioelétricos, utilizado igualmente para espionar seus rivais e aliados, mas que não se compara com a gigantesca extensão do sistema norte-americano.
Os ingleses participam dessa rede por meio de seu serviço de informações eletrônicas, um dispositivo especial da teia tecida pela NSA e que emprega 15 mil pessoas em Cheltenham.
A primeira vez que se ouviu falar desse sistema voltado para a espionagem industrial na Europa foi em 1998, quando o comissário europeu para os negócios externos, Martin Bangeman, declarou: Se esse sistema existe, ele constitui um ataque intolerável contra as liberdades individuais e a segurança dos estados.





