Sem escolas, sem transporte, à beira do desabastecimento e com grandes perdas econômicas, o Equador enfrentava ontem o terceiro dia de paralisação, em consequência de uma onda de greves envolvendo motoristas de táxis, indígenas, camponeses e trabalhadores do setor petroleiro.
Grupos de camponeses e indígenas mantinham em diversas partes do país o bloqueio das estradas com pedras e troncos de árvores, impedindo a passagem de alimentos a muitas cidades, que começavam a sentir os primeiros efeitos do desabastecimento.
Os mercados em Quito estavam ontem praticamente vazios, principalmente de produtos perecíveis, como hortaliças, batatas, milho, queijos, leite, em meio à preocupação dos comerciantes ante o provável prolongamento das greves. Em Guayaquil, 275 km a sudoeste, grupos de manifestantes entraram em conflito com a polícia, que se viu obrigada a usar gás lacrimogêneo para restabelecer a ordem em diferentes pontos dessa cidade portuária.
Na cidade de Otavalo ocorreram saques. Cuenca e Portoviejo já vivem essa situação há uma semana. Ontem, a produção de petróleo sofreu uma redução de 18.500 barris; segunda-feira, havia sido da ordem de 10.000 barris. As aulas nas escolas estão suspensas desde o dia 4 de fevereiro. Cem mil professores exigem aumento dos vencimentos e o pagamento de salários atrasados.
Dirigentes empresariais advertem que o Equador está perdendo entre 70 e 75 milhões de dólares em função das greves contra a política econômica do presidente Jamil Mahuad. ‘‘As perdas diárias com a paralisação estão calculadas em 70 milhões de dólares’’, segundo Joaquín Zevallos, presidente da Federação da Câmara de Comércio do Equador, que atribuiu a crise do país à ‘‘atitude sectária e egoísta dos líderes políticos’’.
Só em exportações, os prejuízos superam os cem milhões de dólares desde o dia 8 deste mês, revelou Luis Maldonado, presidente da Federação Equatoriana de Exportadores. ‘‘A economia está paralisada, não podemos nos mover, há intranquilidade, divergências políticas e não parecem abrir-se as saídas democráticas necessárias para um entendimento’’, disse Zevallos.
Enquanto isso, governo e Congresso discutem um meio de superar a pior crise econômica já vivida pelo país andino nas últimas décadas. A Frente Patriótica, a maior central operária do país, reafirmou ontem que os protestos devem continuar até que Mahuad renuncie. O presidente está há sete meses no poder e sua popularidade, atualmente, beira os 16%. A Frente também planeja uma greve geral por tempo indeterminado que tem o apoio de associações que representam um milhão de camponeses, três milhões de indígenas e 15 mil trabalhadores dos setores petrolífero e elétrico.
A atenção do país se voltou para o Legislativo. Surgiu um novo bloco governista, depois da ruptura do Partido Social Cristão com o governo. A nova maioria é integrada pela Democracia Popular (democrata-cristãos), de Mahuad, a Esquerda Democrática (social-democrata) e outros dois pequenos partidos de centro. Mesmo assim, o governo se encontra em uma encruzilhada.

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