O professor Alexsandro Eugênio Pereira, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, e que coordena o Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), concedeu entrevista à FOLHA sobre o episódio.
FOLHA - A morte de Osama Bin Laden pode desencadear atentados em outros países, sobretudo nos EUA?
Pereira: É possível. Os terroristas ligados a Al Qaeda podem promover retaliações em consequência da morte de Bin Laden. A Al Qaeda não estabeleceu os EUA como alvo exclusivo para possíveis atentados. Países europeus, considerados aliados dos americanos, podem, também, sofrer atentados como parte da retaliação ou para atender outros objetivos da rede terrorista.
FOLHA - O senhor acredita que a morte de Bin Laden pode acirrar os ânimos na região do Oriente Médio, que já vive tantos conflitos?
Pereira - Pode, em virtude da penetração do fundamentalismo islâmico em grupos que se posicionam contra os governantes na região. Esses grupos fazem parte do amplo conjunto de forças sociais que lutam por reformas políticas e pela destituição de seus governantes. Portanto, o impacto da morte de Bin Laden é maior nos grupos associados, de alguma forma, a Al Qaeda e ao fundamentalismo islâmico.
FOLHA - Esse episódio pode ser considerado decisivo na luta global contra o terrorismo?
Pereira - A morte de Bin Laden tem um impacto simbólico na luta global contra o terrorismo. A morte de Bin Laden não provocará a desarticulação da Al Qaeda. Bin Laden era uma liderança importante dentro da organização. Mas é importante observar que a Al Qaeda é uma rede terrorista que possui células espalhadas por diversos países. Trata-se de uma organização transnacional, isto é, que transcende as fronteiras dos países e se articula de uma forma semelhante às empresas multinacionais ou às organizações não governamentais de alcance global, como a WWF e a Médicos sem Fronteira. Empresas e ONGs globais desenvolvem suas atividades simultaneamente em diversos países. As ONGs, por exemplo, são capazes de conectar pessoas por meio das tecnologias da informação. Com isso, formam redes de grupos e indivíduos direcionadas para a realização de determinados objetivos (direitos humanos, meio ambiente, combate à pobreza etc.). A Al Qaeda é uma rede terrorista que tem atuação semelhante às ONGs globais. Para combater tal organização, é preciso desenvolver estratégias apropriadas, como o desenvolvimento de serviços de informação. Além disso, o terrorismo tem causas de natureza econômica e social. A pobreza e a falta de alternativas econômicas alimentam o terrorismo e tornam determinadas populações mais suscetíveis às mensagens das organizações terroristas. O problema, portanto, é mais complexo. Eliminar uma liderança importante, como Bin Laden, não é suficiente para minimizar os efeitos do terrorismo atual.
FOLHA - Para os EUA matar Bin Laden era uma questão de honra. Que mudanças isso pode trazer aos EUA e o resto do mundo?
Pereira - A morte de Bin Laden pode contribuir para a sucessão presidencial de Obama nos Estados Unidos. Obama pode ser lembrado como o presidente que obteve um resultado simbólico importante ao matar o inimigo número um dos Estados Unidos desde os atentados de 2001. Hoje, os americanos se sentem reconfortados e, em certa medida, 'vingados'. A intervenção no Afeganistão após o 11 de setembro não representou uma 'vingança' adequada, pois não puniu a liderança que promoveu os atentados. Se Obama souber manipular adequadamente o resultado obtido, terá um elemento a mais a seu favor nas próximas eleições presidenciais nas quais concorrerá a um segundo mandato. No que diz respeito ao combate ao terrorismo, que interessa à comunidade internacional, os americanos precisam produzir avanços mais significativos. Somente a morte de Bin Laden não é suficiente.

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