Epidemia de ebola enfrenta rejeição a vacinas
Confirmação de caso na República Democrática do Congo aumenta temores de que o vírus possa se estabelecer numa área densamente povoada
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de agosto de 2019
Confirmação de caso na República Democrática do Congo aumenta temores de que o vírus possa se estabelecer numa área densamente povoada
Carolina Vila-Nova – Folhapress 
São Paulo - Os esforços para a contenção da epidemia de ebola da República Democrática do Congo enfrentam uma série de obstáculos, entre eles a resistência de autoridades e da população às campanhas de vacinação, o foco considerado excessivo na doença e os conflitos no combate à moléstia com tradições locais.
Na terça (30), um segundo caso de paciente infectado pelo vírus foi detectado na cidade de Goma, a segunda maior do país. "É um sinal preocupante de que o surto claramente não está sob controle", disse em nota a organização MSF (Médicos sem Fronteiras).
A notícia aumenta temores de que o vírus possa se estabelecer numa área densamente povoada – 2 milhões de habitantes – e que sua propagação adquira caráter transfronteiriço. Já houve alertas de casos em Uganda e perto da fronteira com o Sudão do Sul.
Segundo autoridades locais, o novo paciente não tem relação com o caso detectado em Goma em julho, que resultou em morte e fez com que a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarasse o surto como uma emergência internacional de saúde pública. Criada em 2005, a classificação só havia sido empregada em quatro ocasiões até agora.
"O trabalho tem sido feito com autoridades locais e religiosas para sensibilizar a população, desmistificar a doença, falar das precauções e impedir o aumento da contaminação", relatou Antoine Gauge, chefe da missão do MSF para combater o ebola na fronteira com Ruanda. "É um trabalho de respeitar a tradição e prevenir a doença", explica Gauge sobre o trabalho na região. Ele conta que o contato físico com o morto é um aspecto importante da cultura local. "Eles querem tocar, abraçar, mas é preciso alertar que isso leva a uma maior contaminação."
Fontes locais relatam que o uso de truculência pelas autoridades ao impor a restrição do acesso de familiares aos cadáveres acabou levando a maior resistência da população e piora do acesso dos médicos. "Há uma resistência ainda devido à atenção maciça dada ao ebola e que não está na mesma escala da atenção dada a outras doenças", diz Gauge.
A preocupação vai além de obter atendimento médico para incluir questões como onde encontrar abrigo seguro nas regiões de conflito armado. Embora não seja a própria região conflagrada, Goma fica na província de Kivu do Norte, com forte presença de milícias e grupos armados.
Desde que o surto foi registrado pela primeira vez, em agosto de 2018, mais de 1.700 mortes foram registradas no país. Em média, são contabilizados entre 75 e 100 novos casos por semana. Até 18 de julho, foram 2.438 casos.
A epidemia na África Ocidental entre 2014 e 2016 matou mais de 11,3 mil pessoas.
A estratégia dos agentes de saúde para a chamada vacinação "em anel" é identificar, vacinar e monitorar todas as pessoas com quem os infectados tiveram contato, bem como todos os seus contatos.
Pela primeira vez, essa estratégia está sendo implementada em larga escala. Mas é um método demorado e complexo: além da dificuldade para identificar os contatos individuais de cada pessoa, há problemas de segurança em Kivu do Norte, onde ocorre a maioria dos casos. Centros de tratamento já foram atacados.
O estoque de vacinas experimentais da fabricante americana Merck é considerado extremamente baixo – menos de mil doses. A ideia é aplicar uma segunda vacina experimental, da Johnson & Johnson, como uma espécie de parede de proteção em áreas ainda não afetadas pelo vírus.
Para alguns, a demissão na semana passada do ministro da Saúde, Oly Ilunga, que se opunha à vacinação em massa, pode destravar a ação. Mas, para agentes de saúde locais, ainda vai levar meses até que a desconfiança da população seja vencida e o tratamento comece a dar resultados. "Os congoleses têm o direito de ter o 'padrão ouro', a melhor vacina. Eles não precisam se sujeitar a experimentações", afirmou Ilunga à Reuters logo após sua renúncia. O MSF explica que nenhum tratamento é dado sem consentimento explícito do paciente.


