France PresseJesus CristoTrabalhador cubano dá últimos retoques na decoração de um painel montado na Biblioteca Nacional, em Havana. Visita do Papa mobiliza Igreja e o governoNos últimos cem dias, desde que ele e oito outros ativistas começaram uma greve de fome, Ivan Lemas tem esperado que a Igreja Católica Romana de Cuba - e a visita do papa João Paulo II esta semana - o protejam. O seu ‘‘jejum de oração’’ em Santa Clara (local da primeira missa do papa) tinha por finalidade protestar contra o que consideram a detenção ‘‘arbitrária’’ do ativista de direitos humanos Daula Carpio. Mas isso teve conotações positivamente religiosas: quando a polícia deu uma batida na casa de Lemas para prendê-los por ‘‘associação ilegal’’, os grevistas de fome estavam sentados em círculo, rezando diante de um busto de gesso de Jesus Cristo e um pôster de João Paulo II. Três meses depois, Lemas e seis outros continuam detidos - e todos menos um ainda se recusam a ingerir alimentos sólidos. Lemas, esquelético depois de perder 21 quilos, não consegue mais caminhar e mal consegue falar. Mas não perdeu nada da sua determinação. ‘‘Não desistiremos enquanto ele não suspender as acusações’’, disse ele. ‘‘Estamos fazendo isso para mostrar a intransigência do governo’’.
A 400 quilômetros a oeste, na cidade de Pinar del Rio, a história é bem diferente. No cômodo dos fundos de uma catedral católica, sob uma pintura que reproduz Lázaro, um sociedade civil independente está sendo ressuscitada - e Fidel Castro está deixando isso acontecer. Maria del Carmen Gort, um católica leiga de 31 anos, está liderando um grupo de seis homens e mulheres, a maioria deles jovem e católico em um seminário sobre o papel do governo e dos partidos políticos. É um iniciativa cívica elementar, mas em um sistema onde o Estado e o partido são fundamentalmente sinônimos, parece herético. A uma certa altura um homem desabafa: ‘‘Se somente uma pessoa decide o nosso destino, não temos nada parecido com democracia aqui’’. O seminário, que faz parte de um Centro de Formação Cívica e Religiosa patrocinado pela Igreja, é um dos únicos lugares em Cuba onde as pessoas podem discutir livremente tais idéiais. ‘‘Estamos vivendo em um buraco negro’’, diz Jaime Machuat, um vendedor ambulante que começou a participar do grupo há dois meses. ‘‘Mas as pessoas estão perdendo o medo... Nunca sonhei que isso pudesse acontecer’’.
Será que o verdadeiro Fidel Castro poderia por favor mostrar-se? Na véspera da visita do papa a um dos últimos postos avançados do comunismo no mundo, o governo está enviando sinais contraditórios sobre o grau de dissidência que vai tolerar nas ativistas religiosas. No momento, qualquer cubano que anseie por respirar e discutir livremente parece estar se abrigando debaixo do guarda-chuva da Igreja Católica. E Fidel Castro, por enquanto, está acenando com todo o tipo de sinais certos: em uma aparição de quase seis horas na televisão na sexta-feira à noite, elogiou efusivamente João Paulo II como ‘‘a maior dor de cabeça do imperialismo’’ e prometeu assistir à missa de encerramento em Havana no dia 25 de janeiro - e sem fazer discursos. ‘‘Fidel ficou tão amável que não duvido que apareça nas missas como um coroinha’’, diz um padre. Mas a história dessas duas cidades mostra que qualquer ativismo religioso que se transforma em ativismo político - ou que não tem o apoio explícito da Igreja - ainda é rigorosamente proibido.
Não há em algum outro lugar de Cuba um projeto independente tão sofisticado ou tão ameaçador quanto o ciclo de palestras em Pinar del Rio. Lançado em 1993 pelo laicado católico sob a égide do arcebispo local, os seminários semanais tratam de tudo, desde ética pessoal à economia de mercado. Os seminários atraíram somente cerca de 2.000 pessoas nos últimos quatro anos e a revista derivada deles, Vitral, imprime menos de 2.000 cópias a cada dois meses. Mas o diretor Dagoberto Valdés acredita na ‘‘força dos pequenos passos’’. Após quatro década de doutrinação, Valdés diz que as pessoas precisam descobrir a ‘‘liberdade interior’’ para assumir o controle de suas vidas e cerzir a trama rasgada da sociedade civil. ‘‘O mais importante não é a mudança política em si’’, diz Valdés, ‘‘mas construir uma sociedade civil autônoma e madura na qual os cubanos possam treinar para a democracia’’.
O governo cubano tem encontrado dificuldade em lidar com esses nichos de independência. Valdés foi afastado do seu trabalho de engenharia e relegado ao trabalho manual de colher folhas de palma usadas para engradados de fumo. Em maio de 1997, figurões do partido convocaram Valdés para passar-lhe uma descompostura por causa das ‘‘críticas desmesuradas’’ publicadas pela revista e porque os seminários fazem abertamente ‘‘incursões’’ na política. Mesmo assim, o governo não ousou acabar com eles. Diz um padre: ‘‘Somente a Igreja conseguiria escapar de uma coisa como essa’’.
Mas, poucos bispos cubanos têm se mostrado ansiosos por seguir o caminho de Pinar del Rio. Em Santa Clara, a igreja de Lemas ministra aulas sobre religião, mas, sob pressão, teve que retirar a Declaração de Direitos Humanos que antes estava afixada na quadro de avisos. Lemas e seus colegas grevistas ainda lêem a Bíblia todos os dias e recebem a visita de um padre de vez em quando. Mas, sem a proteção da Igreja, eles estão vulneráveis. Definhando em uma cadeira de rodas, Lemas se agarra à minguada esperança de que o papa, se não a polícia, os libertará.

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