Entre a real politik e o milagre
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quarta-feira, 21 de janeiro de 1998
Marcelo Brusa Miami, EUA 
France PresseCubana estende roupa em uma Havana decorada com fotos do PapaEm meio à ânsia por um milagre que ponha fim ao governo de Fidel Castro e à reserva imposta pela análise séria da real politik, centenas de milhares de anticastristas da Flórida se apressam a acompanhar a visita do Papa João Paulo II a Cuba.
Em Miami, onde moram entre 800.000 e um milhão de cubanos exilados ou com filhos nascidos aqui, as populares emissões de microfone aberto das rádios anticastristas de Miami batem recorde de ouvintes. De manhã, à tarde e à noite, ele expressam suas esperanças de que a viagem papal marque a queda do governo revolucionário cubano no poder há 39 anos.
Vai acontecer como na Polônia. O Papa chegará e esse demônio comunista que temos há 40 anos em nosso país terá que ir embora, vociferava Gladis, uma ouvinte moradora do bairro de Hialeah. Adiante cubanos! A salvação de nossa pátria será conseguida através da fé, única arma contra o mal. A visita do Santo Padre é a injeção de fé, esperança e caridade de que precisa o povo escreveu María Oliva, de Miami Beach, ao correio de leitores do jornal El Nuevo Herald.
Mas, enquanto os exilados se iludem uns aos outros, os líderes das organizações anticastristas fazem outras análises. Do ponto de vista político, com a visita do Papa a Cuba nada acontecerá. Equivocam-se os que esperam um furacão de mudanças. Cuba não é a Polônia e, além disso, o Papa é polonês e não cubano, disse o jornalista Pablo Alfonso.
Na Polônia, a Igreja tinha poder. Em Cuba apenas ressurgiu de suas cinzas depois de arrasada, destruída há 39 anos ao confrontar uma Revolução triunfante disse Alfonso, especializado em temas cubanos e em assuntos religiosos. Outro aspecto que derruba qualquer comparação é a inexistência de uma oposição organizada em Cuba, como a que existia na Polônia no final dos anos 80, com Lech Walessa e o Solidaridade.
A maior expectativa está nas mudanças internas que possa provocar a visita em cada pessoa, comentou Ninoska Pérez, porta-voz da poderosa e radical Fundação Nacional Cubano Americana (FNCA).
O resultado positivo da viagem Papal será que a Igreja ganhará terreno no trabalho pastoral e, em especial, terá um impacto sobre a consciência da população, ao mostrar que existem coisas diferentes das que são apresentadas pelo regime, explicou Ricardo Bofill, presidente do Comitê Cubano pelos Direitos Humanos.


