Cerca de 180 cardeais, provenientes do mundo inteiro, foram convocados pelo papa João Paulo II para um Consistório extraordinário que começa amanhã e vai até quinta-feira, dia 24, no Vaticano. A pedido do Sumo Pontífice, eles irão traçar o perfil da Igreja Católica no terceiro milênio.
Para muitos especialistas trata-se de uma espécie de pré-coclave e constitui uma ocasião única para que os candidatos a futuro papa se conheçam melhor.
Da reunião, participarão tanto os 135 cardeais eleitores, ou seja, os com menos de 80 anos e com direito a participar em um eventual Conclave (eleição do papa), como os 48 não-eleitores.
A ordem do dia da reunião, que será celebrada na sala dos sínodos, não foi divulgada até o momento e provavelmente abordará temas-chaves para o futuro da Igreja, como o ecumenismo e a função dos missionários.
Segundo fontes vaticanas bem informadas, os cardeais, que vão se reunir a portas fechadas, poderão abordar um tema historicamente delicado e candente para a Igreja Católica, como a primazia do papa e as complexas relações entre o chamado ‘‘Bispo de Roma’’ e a cúria romana, ou seja, o aparelho central da Igreja e as Igrejas locais.
A primazia do Pontífice é um dos argumentos que tradicionalmente complicam as relações entre católicos e cristãos e foi fonte de divisão em relação aos protestantes e ortodoxos.
A visita do papa à Ucrânia, programada para junho, também será tema das conversações, já que existe um verdadeiro conflito entre a comunidade greco-católica e o patriarca de Moscou, Alexis II, chefe da Igreja Ortodoxa russa.
O prestigioso cardeal austríaco Franz Koenig, muito lúcido em seus 95 anos, participante de três Conclaves e impulsionador da chamada Ostpolitik da Santa Sé, comentou o tema em uma entrevista à revista da Sociedade religiosa São Paulo.
‘‘Para a Igreja Católica, o papa é o sucessor de Pedro, responsável pela unidade da Igreja, nada mais. Seu cargo não é o de comandante central. É preciso aceitar a colegialidade antes de tudo, para não afetar a unidade. A primazia é a estrutura jurídica, encarregada de evitar divisões. O próprio papa admitiu que seu cargo representa uma dificuldade para o ecumenismo. Por isso convidou as Igrejas cristãs a debaterem, mas as reações foram difíceis’’, declarou.

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