Em Pyongyang, capital da Coréia do Norte, dois Kims se encontram. Um deles é Kim Jong-il e o outro Kim Dae-jung. Mas, além do nome igual, nada existe de mais oposto do que estes dois homens.
Até mesmo sua nacionalidade coreana comum os separa, pois um dirige a Coréia do Norte (capital Pyongyang) e o outro a Coréia do Sul (capital Seul). O do Sul faz parte do ‘‘mundo livre’’. O outro, o do Norte, comunista, dirige um dos últimos regimes ‘‘estalinistas’’ do mundo.
Esse encontro é um evento gigantesco, impensável há alguns meses.
Efetivamente a Coréia do Norte, liderada desde 1994 pelo ditador estalinista Kim Jong-il (filho do criador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, chamado de ‘‘papai marechal’’) é um dos últimos vestígios da Guerra Fria.
A Coréia foi exatamente um dos pontos que desencadearam esta Guerra Fria. Uma vez mais, voltamos a Yalta. Em fevereiro de 1945, Stalin, Roosevelt e Churchill dividiram entre si a Coréia (que havia suportado a dura lei do Japão durante meio século) em duas zonas, o Norte e o Sul, dois lados do paralelo 38. Os soldados aliados ao Sul, os soldados russos ao Norte, deveriam desarmar os soldados coreanos.
Muito bem. Mas as tensões entre antigos aliados antinazistas cresceram e Stalin não quis mais participar do jogo. Os Estados Unidos fizeram eleger no Sul como presidente um antigo agitador, Syngman Rhee, que proclamou a República da Coréia em maio de 1948, em Seul. E houve a réplica na Coréia do Norte: foi eleito Kim Il-Sung, comunista, que vivia na União Soviética desde 1940.
E, um ano depois do início do bloqueio de Berlim, enquanto Moscou fazia explodir em 1949 sua primeira bomba atômica e na China Mao Tse-Tung instalava o comunismo, Kim Il-Sung invadiu a Coréia do Sul no dia 25 de junho de 1950.
O que aconteceu depois é conhecido. Mac Arthur recoloca os pés na Coréia. Os Estados Unidos intervêm com a cobertura da ONU. Uma guerra abominável. Harry Truman hesita em empregar a bomba atômica para fazer recuar a China, que combate ao lado da Coréia do Sul. Em três anos, a guerra faz 2,5 milhões de mortos (um milhão de chineses).
Entre as duas Coréias inimigas, a paz jamais foi assinada.
Simplesmente um armistício. E começa então o inferno que dura há 50 anos: milhões de famílias coreanas divididas em duas. Hoje, os velhos estão no final de sua vida, longe do país de sua infância. Uma sociedade dilacerada.
Em termos políticos, o Sul está claramente do lado dos Estados Unidos (com exceção dos estudantes, que, diante de uma polícia robusta, pagam um preço pesado por seu
antiamericanismo). O país é reconstruído sob um regime de ferro. Em Seul, reina a ditadura, chamada de democracia. Pelo menos, este poder brutal estimula o ‘‘milagre econômico’’. E, felizmente, desde o final da década de 80, a Coréia do Sul reencontrou maneiras civilizadas, democráticas. Uma crise econômica aguda a sacudiu há dois anos. Sua prosperidade parecia quebrada. Mas agora o país já volta a avançar.
A Coréia do Norte adota o caminho oposto: seu criador, Kim il-Sung, é uma dessas abomináveis ‘‘cabeças utópicas’’ (como Pol Pot, no Camboja, foi uma versão ainda mais sanguinária). A Coréia do Norte pretende garantir a igualdade de todos numa ‘‘cidade de cristal’’.
Ambição utópica que, ao longo da história, gerou sistemas de sangue e de prisões nos quais os indivíduos se dissolvem em benefício da ‘‘Comunidade’’ e que resultam na criação de desertos. Hoje, a capital da Coréia do Norte é um testemunho destas ambições prometeicas: uma cidade moderna, avenidas largas, racionalidade, frieza, solidão... Esta cidade é o símbolo da morte.
E a Coréia do Norte, que antes de 1950 era mais rica que a Coréia do Sul, caiu no abismo da pobreza, da miséria, da fome... Mas este país esgotado continuou, contra ventos e marés, uma política militar luxuosa, que permite provavelmente a Pyongyang a posse da arma nuclear - argumento do qual a diplomacia de Kim Jung-il usa e abusa.
O que podemos esperar do encontro entre os dois Kims inimigos? Nem mesmo os coreanos - do Sul ou do Norte - têm qualquer idéia sobre isso. O verdadeiro acontecimento é que, depois de meio século de gelo, os dois pedaços separados pela fronteira do paralelo 38 (que continua sendo o lugar mais militarizado e o mais perigoso do Planeta) conversam entre si.
Imaginamos que as conversações, na melhor das hipóteses, só deverão abordar problemas importantes. Mas não fundamentais (como a reunificação, que parece fora de questão). Talvez a Coréia do Norte tente obter uma ajuda para sua economia em ruínas. Talvez as duas Coréias se esforçem para aliviar o calvário destes milhões de pessoas deslocadas no final da guerra. Mas o ponto mais importante pode ser assim resumido: ao que parece, um dos últimos restos sobreviventes de Stalin e da Guerra Fria começam a se dissolver.

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