Sob protestos do Congresso dos Estados Unidos e surpresa da opinião pública, a companhia norte-americana ACT (Advanced Cell Technology Inc.) anunciou ontem ter concluído a primeira clonagem de um embrião humano da história.
Repetindo a mesma base do processo utilizado para clonar a ovelha Dolly, em 1996, cientistas da ACT, trabalhando secretamente num laboratório no Estado de Massachusetts durante um ano, substituíram com sucesso o DNA (molécula onde está codificada a receita para construir um indivíduo) de um óvulo humano pelo DNA do núcleo de uma célula adulta de pele humana.
Os diretores da ACT disseram que o objetivo da experiência não é criar um ser humano clonado, mas usar o embrião clonado para fins terapêuticos, na obtenção de células-tronco para o tratamento de diversas doenças.
Células-tronco podem transformar-se em qualquer outro tipo de célula no corpo humano. Por essa razão, os embriões clonados podem, em tese, fornecer material para regenerar tecidos com problemas em órgãos como o fígado, o pâncreas ou a medula óssea.
Uma das grandes promessas do uso terapêutico dessas células é substituir células defeituosas em diabéticos, curando a doença.
''Cientificamente, biologicamente, as entidades que estamos criando não são indivíduos. Elas são apenas vida celular, não são vida humana'', disse Michael West, presidente e executivo-chefe da companhia. ''O que esperamos é entrar numa nova era, que chamamos de medicina regenerativa, onde podemos usar tecnologias de clonagem não para copiar seres humanos, mas para trazer as células ao estágio embrionário e, pela primeira vez, substituir células doentes'', afirmou.
Direção errada Apesar das garantias da companhia, seus cientistas deram exatamente os primeiros passos usados para clonar um ser humano. Por essa razão, o anúncio provocou protestos imediatos no Congresso norte-americano.
Os congressistas não esperavam que a iniciativa fosse partir de dentro do país. As expectativas, até agora, se concentravam no italiano Severino Antinori e no cipriota radicado nos EUA, Panos Zavos, que anunciaram para o ano que vem a produção do primeiro clone humano com finalidade reprodutiva , em algum país do Mediterrâneo.
A legislação americana proíbe apenas o uso de dinheiro dos contribuintes na clonagem de seres humanos. Em julho, a Câmara dos Representantes aprovou um projeto que barraria experiências do tipo.
''Francamente, o anúncio é desconcertante'', declarou o líder da maioria democrata no Senado, Tom Daschle. ''Isso está indo na direção errada.'' Antevendo protestos, a companhia adotou desde o início dos experimentos, há um ano, uma estratégia para salientar seus objetivos terapêuticos.
A célula de pele humana usada no experimento pertence ao cientista Judson Somerville, de 40 anos, que ficou paralítico depois de um acidente de bicicleta. Segundo a empresa, a paralisia pode em tese ser curada com tratamentos médicos derivados da clonagem de embriões humanos.
Além da estratégica escolha de uma célula de Somerville, uma repórter da revista ''U.S. News & World Report'' foi autorizada a acompanhar toda a experiência, que durou mais de um ano, e a publicar sua reportagem ontem, simultaneamente ao anúncio feito pela companhia.
Mas a controvérsia está implícita nas entrelinhas das próprias declarações de representantes da empresa. ''Nossos resultados preliminares somam-se a outras evidências de que a reprogramação de uma célula humana é possível'', disse ontem José Cibelli, um cientista argentino que ocupa o cargo de vice-presidente de pesquisas da ACT. ''São resultados ainda preliminares, mas, dada a importância de seu uso no campo da medicina regenerativa, decidimos publicá-los agora'', afirmou.
Preocupação O Vaticano expressou ontem sua preocupação com o anúncio da primeira clonagem de um embrião humano feita pela companhia americana Advanced Cell Technology Inc., e voltou a condenar esse tipo de experência. A primeira reação do Vaticano chegou com dom Tarcísio Bertone, secretário da Congregação para a doutrina da fé, a instituição dirigida pelo cardeal Joseph Ratzinger. ''Ainda não sabemos exatamente qual o processo e se pode ser definido como uma verdadeira clonagem humana'', disse monsenhor Bertone à agência italiana Ansa. ''Ainda é preciso uma série de verificações científicas'', acrescentou. O prelado recordou a condenação do Vaticano de qualquer clonagem humana.

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