Rio de Janeiro - O embaixador da Argentina no Brasil, Juan Pablo Lohlé, defendeu ontem a criação de salvaguardas permanentes no Mercosul em favor dos sócio menores - Argentina, Uruguai e Paraguai - de maneira que sempre que se ultrapasse determinados limites de exportações para esses países ou de saldos comerciais haja compensações para eles. ''A existência de superávit comercial de sócio menor não coloca em risco a sobrevivência de nenhum setor do sócio maior, mas o contrário sim'', afirmou em palestra na Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (Amcham-Rio).
O governo argentino levantou ontem as restrições às importações de geladeiras e fogões brasileiros - enquanto continuarão as negociações envolvendo o setor de máquinas de lavar - e manterá uma tarifa à importação de televisores produzidos na Zona Franca de Manaus, anunciou o Ministério da Economia.
De acordo com Lohlé, as indústrias argentinas da linha branca estavam ameaçadas e por isso o país decidiu reduzir as exportações brasileiras. ''Não é verdade que a Argentina se torna protecionista quando tem déficit, mas que toma medidas quando algum setor está em risco'', afirmou.
No entanto, ele diminuiu a importância desses setores na relação entre os dois países, lembrando que são negociados milhares de produtos no comércio bilateral, que chega a US$ 14 bilhões. Também observou que há cooperação nas áreas de energia nuclear, incluindo o enriquecimento de urânio, e militar, onde os dois países preparam a fabricação de um veículo com tração quatro por quatro. ''Não vamos brigar por geladeiras quando temos isso'', afirmou depois, em entrevista.
Lohlé deixou claro também que a Argentina quer revisar o acordo automotivo bilateral que vence em 2006 para que passe a fabricar mais carros populares, que hoje são feitos no Brasil, ou para que participe mais na produção desse tipo de automóvel de forma complementar, para exportar para terceiros países. ''A Argentina (no acordo em vigor) se comprometeu a fazer automóveis de luxo que é um mercado muito menor'', comentou.
Alca - O embaixador acha difícil que um acordo para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) seja fechado ainda este ano. Ressalvando que falava em nome pessoal e não pelo governo, manifestou-se contrário a que os países permitam a maior abertura defendida pelos Estados Unidos, especialmente em compras governamentais e serviços.
O embaixador chamou de ''fantasia'' a idéia de que ''porque temos alguns produtos fortes podemos competir em todos os setores''. De acordo com ele, ''a Argentina pagou muito caro o preço da abertura comercial de todos os setores'' com o alto desemprego e o empobrecimento da população. ''Tem que ter vantagem recíproca: se a gente abrir um setor, tem que ser aberto outro lá'', afirmou.

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