A América Latina espera o próximo presidente dos Estados Unidos com a convicção de que manterá o Plano Colômbia e que não haverá mudanças imediatas no embargo contra Cuba, mas tem expectativas sobre o desbloqueio das negociações do ALCA para criar a zona de livre comércio em escala continental.
Analistas e funcionários latino-americanos destacam que o candidato democrata Al Gore e o republicano George W. Bush concordam nos grandes temas políticos frente ao hemisfério, mas atribuem a Bush uma atitude mais liberal para atender às questões comerciais e de imigração.
Quem quer que resulte eleito no dia 7 de novembro herdará as complicadas relações com o presidente cubano Fidel Castro, o incômodo Plano Colômbia, focos de instabilidade democrática no Peru e um líder como o presidente venezuelano Hugo Chávez, que se empenha em ostentar sua autonomia frente a Washington.
Para Castro, será o décimo presidente americano com quem deverá lidar, desde 1959.
Bush e Gore defendem o bloqueio imposto contra a ilha comunista há quase quatro décadas, mas deverão enfrentar as pressões domésticas e internacionais para levantá-lo.
Vença Bush ou vença Gore, o presidente Andrés Pastrana confia em pôr em marcha seu Plano Colômbia contra o narcotráfico, apoiado por Washington com US$ 1,3 bilhão em ajuda militar e financeira.
O plano gerou preocupação na América do Sul por causa da ingerência americana na região e a possibilidade que o conflito interno colombiano, assim com os refugiados e os cultivos ilegais, ultrapassem as fronteiras.
Também a Bolívia – que com ajuda dos Estados Unidos reduziu drasticamente seus narcocultivos, afetando os camponeses plantadores de coca – espera que Washington dê igual apoio a sua pobre economia.
Uma das incógnitas está em como agirá o sucessor de Clinton em relação ao presidente venezuelano Hugo Chávez, cujos pronunciamentos estão sempre em direção contrária aos do departamento de Estado.
Chávez foi, este ano, o primeiro mandatário que visitou o Iraque desde a Guerra do Golfo em 1991. Também não hesitou em acertar o fornecimento de petróleo a Cuba em condições preferenciais, e criticou o Plano Colômbia afirmando que ‘‘assim começou (a guerra do) Vietn㒒.
No Brasil, os dois principais expedientes das relações com os Estados Unidos são o Plano Colômbia – em relação ao qual Brasília sempre deixou claro suas distâncias – e a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).
O Brasil espera negociar desde uma posição de líder da América do Sul este produto lançado por Clinton há seis anos, cujo objetivo é criar uma zona de livre comércio que vá do alasca a Terra do Fogo antes de 2005.
Quanto às negociações comerciais, em Brasília se vê com receios os vínculos dos democratas com os sindicatos norte-americanos, e considera-se que a chamada ‘cláusula social’ (de proteção às condições trabalhistas) é uma mera sutileza para manter o protecionismo dos mercados dos países ricos.
A Argentina, por sua vez, acredita ser imperioso que o Congresso conceda ao próximo presidente o que já foi negado a Clinton por duas vezes: por em prática o ALCA mediante o ‘‘fast track’’, que permite ao chefe de Estado negociar tratados de livre comércio sem submeter cada decisão à aprovação legislativa.
O Chile, por sua vez, espera que o próximo presidente americano dê prioridade ao tratado de livre comércio que Clinton ofereceu a esse país em 1994.
No Peru, confrontado a uma crise política que levou o presidente Alberto Fujimori a convocar eleições antecipadas em abril próximo, se observa principalmente as intenções políticas do próximo mandatário americano.
Um congressista do opositor partido Peru Possível, Juan Velit Granda, afirmou que ‘‘o partido Democrata (de Gore) está mais próximo das preocupações da região’’. (France Presse)